0092/2026 - Implicações do uso de agrotóxicos na saúde de agricultores familiares da Zona da Mata de Minas Gerais, Brasil
Implications of pesticide use on the health of family farmers in the Zona da Mata region of Minas Gerais, Brazil
Autor:
• Jérsica Martins Bittencourt - Bittencourt, JM - <jersica.cunha@ufv.br>ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3821-8171
Coautor(es):
• Sílvia Oliveira Lopes - Lopes, SO - <silvia.lopes@ufv.br>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6755-8610
• Edna Miranda Mayer - Mayer, EM - <edna.mayer@ufv.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1948-110X
• Dayane de Castro Morais - Morais, DC - <dayanecm@yahoo.com.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6439-7009
• Francilene Maria Azevedo - Azevedo, F.M - <francilene.azevedoufv@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2162-5408
• Sylvia do Carmo Castro Franceschini - Franceschini, SCC - <sylvia@ufv.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7934-4858
• Silvia Eloiza Priore - Priore, SE - <sepriore@ufv.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0656-1485
Resumo:
Trata-se de um estudo transversal que avaliou a associação entre o uso de agrotóxicos e a ocorrência de alterações endócrinas, antropométricas e na concentração de iodo urinário de agricultores familiares adultos, residentes na Zona da Mata de Minas Gerais. Foi coletado sangue para quantificar os marcadores de alteração tireoidiana e de intoxicação por agrotóxicos, e urina para avaliar a concentração de iodo urinário. Para verificar a associação da exposição ao uso de agrotóxicos com os desfechos, foram conduzidos os testes de Qui-quadrado de Pearson ou Exato de Fisher e a regressão de Poisson. Conforme a normalidade, realizaram-se testes de comparação de grupos t de Student e Mann-Whitney, além de correlações de Spearman. Participaram do estudo 306 agricultores familiares, destes, 44,1% (n=135) estavam usando agrotóxicos. O uso de agrotóxicos associou-se a níveis elevados de iodo urinário (p=0,017) (RP=1,32; IC 95% 1,05 – 1,66), e a prevalência de excesso de peso foi maior entre aqueles que usavam esses produtos por tempo ? 10 anos, comparado aos que não utilizavam ou o faziam por menor tempo (RP=1,51; IC 95% 1,07–2,13; p=0,017). Estes resultados demonstram que há implicações na saúde de agricultores familiares que utilizam agrotóxicos, evidenciando a necessidade de se estimular práticas de agricultura agroecológicas ou orgânicas.Palavras-chave:
Agrotóxicos. Agricultores familiares. Excesso de peso. Iodo urinário elevado.Abstract:
This cross-sectional study evaluated the association between pesticide use and the occurrence of endocrine and anthropometric alterations, as well as changes in urinary iodine concentration, among adult family farmers living in the Zona da Mata region of Minas Gerais. Blood samples were collected to quantify markers of thyroid function and pesticide intoxication, and urine samples were collected to assess urinary iodine concentration. Associations were examined using Pearson’s chi-square or Fisher’s exact tests and Poisson regression. According to data distribution, Student’s t test, Mann–Whitney test, and Spearman correlation were applied. A total of 306 family farmers participated in the study, of whom 44.1% (n=135) reported pesticide use. Pesticide use was associated with elevated urinary iodine levels (p=0.017; PR=1.32; 95% CI: 1.05–1.66), and the prevalence of overweight was higher among individuals with pesticide use for ≥10 years compared to those with shorter or no exposure (PR=1.51; 95% CI: 1.07–2.13; p=0.017). These findings indicate health implications associated with pesticide exposure among family farmers, highlighting the importance of promoting agroecological or organic farming practices.Keywords:
Pesticides. Family farmers. Overweight. Elevated urinary iodine.Conteúdo:
A “Revolução Verde” desencadeou o uso maciço de agrotóxicos em todo mundo, introduzido na agricultura nos Estados Unidos na década de 1950 e disseminado no Brasil a partir da década de 19601-3. Dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento mostram que, nos últimos anos, ocorreu aumento na liberação de novos registros de agrotóxicos. Concomitante a isso, os resultados do último Censo Agropecuário, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2017, mostraram um aumento na utilização desses produtos nas propriedades rurais do Brasil, com ampla difusão na agricultura familiar4-7.
De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) (2024), a ampla utilização de agrotóxicos acarreta importantes impactos ambientais e à saúde pública. Dessa forma, os trabalhadores rurais, especialmente os agricultores familiares, configuram-se como um dos grupos mais suscetíveis a problemas de saúde em razão de fatores como a exposição direta aos agrotóxicos8.
Os agrotóxicos são usados com o intuito de repelir organismos causadores de danos nas plantações agrícolas, porém também podem eliminar seus predadores naturais, afetar a fauna e flora, favorecer o surgimento de resistência em insetos e patógenos, e, consequentemente, gerar dependência dos agricultores ao uso desses produtos que estão associados a efeitos adversos à saúde humana e ao meio ambiente9,6.
Além disso, os agrotóxicos podem atuar como disruptores endócrinos, um exemplo é a desregulação no funcionamento da glândula tireoide10. Segundo Kongtip e colaboradores 11, a exposição aos agrotóxicos pode causar desregulação no funcionamento da glândula tireoide, interferindo na captação celular de hormônios tireoidianos, provocando alterações na expressão gênica e inibindo a absorção de iodo. O uso desses produtos também tem sido associado à obesidade, uma doença crônica que pode contribuir para o surgimento de outras doenças, incluindo as próprias alterações endócrinas12.
Pesquisas que avaliam essas relações contribuem para o avanço do conhecimento em saúde pública, com vistas a subsidiar ações e apoiar a formulação de estratégias que desestimulem o uso desses produtos13.
Tendo em vista as implicações do uso de agrotóxicos na saúde e o aumento da utilização desses produtos, inclusive pela agricultura familiar, o objetivo desse estudo foi avaliar a associação entre o uso de agrotóxicos e a ocorrência de alterações endócrinas, antropométricas e na concentração de iodo urinário de agricultores familiares adultos, residentes na Zona da Mata de Minas Gerais.
MÉTODOS
Delineamento do estudo e procedimento de amostragem
Trata-se de um estudo transversal realizado com agricultores familiares. O cálculo da amostra foi realizado no programa OpenEpi ® versão 3.01, utilizando a equação: n = [EDFF × Np (1 – p)] / [(d2/Z21 – ?/2 × (N – 1) + p × (1) – p)]. Para o tamanho da população (N), considerou-se o total da população adulta rural da Região Geográfica Imediata de Viçosa (n=31.090), segundo dados do censo demográfico disponível no período do estudo (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, 2010)14.
Devido à inexistência de dados nacionais referentes à concentração de iodo urinário em adultos residentes em áreas rurais, para a prevalência (p), utilizou-se 14,1% de deficiência de iodo, proveniente da prevalência em escolares residentes na zona rural, analisados na Pesquisa Nacional para Avaliação do Impacto da Iodação do Sal – PNAISAL. O erro tolerável (d) considerado foi de 5%, nível de confiança de 95%, escore padrão de distribuição normal (Z) de 1,96 e efeito do desenho do estudo (EDFF) de 1,5 para amostras aleatórias da zona rural15-16.
Como resultado, chegou-se a 278 indivíduos, e ao considerar um adicional de 10% para dados incompletos e controle de fatores de confusão, resultou-se em uma amostragem final de 306 adultos, que foram sorteados, de cidades da Região Geográfica Imediata de Viçosa, que pertencem à Zona da Mata de Minas Gerais, Brasil14.
A amostra foi constituída em seis estágios: (1) definição da Região Geográfica Imediata de Viçosa para coleta de dados (2) seleção dos municípios que tinham empresa de assistência técnica e extensão rural (n=9 municípios) e aceite institucional para participação (n=8 municípios) (3) cálculo do número de adultos que deveriam ser visitados, segundo proporcionalidade de sexo e da população rural dos municípios (4) sorteio dos participantes pela lista de agricultores familiares cadastrados na empresa de assistência técnica e extensão rural de cada um dos municípios participantes, sendo incluído um participante por domicílio; neste estágio foram feitos convite aos sorteados para participar do estudo, em caso de aceite foi realizado agendamento para coleta (5) coleta de dados, sangue e urina (6) retorno aos participantes com entrega dos exames bioquímicos.
Os 306 indivíduos participantes foram distribuídos pelos oito municípios elegíveis e com aceite institucional: Cajuri, Canaã, Coimbra, Ervália, Paula Cândido, São Miguel do Anta, Teixeiras e Viçosa.
Critérios de inclusão
Foram incluídos no estudo agricultores adultos, com idade entre 20 e 59 anos, residentes nas cidades da Região Geográfica Imediata de Viçosa que desejaram participar do estudo.
Critérios de exclusão
Foram excluídas gestantes devido à demanda metabólica e indivíduos que já haviam realizado a tiroidectomia.
Coleta de dados
A coleta de dados ocorreu no período de fevereiro de 2021 a junho de 2022. Inicialmente, foi feita a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, por telefone, em função da pandemia da COVID-19.
Após o aceite em participar do estudo, foi realizada uma entrevista por telefone com questionário semiestruturado individual. Foram obtidas informações autorrelatadas referentes aspectos sociodemográficas (município de residência, sexo e idade), medidas antropométricas (peso e altura) e uso de agrotóxicos, por meio das perguntas “O sr.(a) usa ou já usou agrotóxicos”, para aqueles que responderam afirmativamente, perguntava-se “Há quanto tempo o sr.(a) utiliza esses produtos”. Além disso, questionou-se ao participante se ele possuía alguma doença endócrina, tais como hipertireoidismo, hipotireoidismo, doença de Cushing, doença de Addison, acromegalia, diabetes ou outra, em caso de a resposta ser “outra” perguntava-se qual. Neste contato, também era agendado um dia e horário para coleta de sangue e de urina no domicílio do participante.
Foram coletados 5 mL de sangue após jejum de 12 horas, pela manhã, os quais foram armazenados e transportados em sete tubos “livres de metais” (SST II Advance da marca BD Vacutainer® de 5mL). O sangue foi coletado para quantificar os marcadores de função tireoidiana, sendo estes a tiroxina livre (T4L), hormônio tireoestimulante (TSH), triiodotironina (T3), bem como, os marcadores de intoxicação por agrotóxicos de forma aguda (colinesterases totais - ChEs) e crônica (acetilcolinesterase - AChE). Os participantes também coletaram 50 mL de urina casual em pote plástico estéril devidamente identificado para posterior determinação da concentração de iodo urinário (CIU). As amostras de sangue e urina foram transportadas em caixa de polietileno em temperatura média de 16° C, por cerca de 3 horas, até o laboratório contratado. O tempo até as análises no laboratório foi de cerca de 12 horas17-20.
O método para avaliação dos marcadores sanguíneos tireoidianos foi o de quimioluminescência, sendo que para análise de T3 foi utilizado o kit Access Total T3, para o T4 livre o Access Free e TSH o Access TSH 3rd IS. Já para avaliação dos marcadores de intoxicação por agrotóxicos, para a ChEs foi utilizado o método de potenciometria com o kit de validação in house e para a AChE o colorimétrico com o kit CHE - Beckman Coulter21.
Para a obtenção da CIU, utilizou-se um espectrômetro de massas com plasma indutivamente acoplado (ICP-MS) modelo Elan DRC II (Perkin-Elmer, Norwalk, C). Os dados das amostras foram obtidos usando 20 varreduras de leitura (sweeps/reading) e três replicatas. As leituras foram obtidas em contagens de segundo. Mais detalhes metodológicos podem ser obtidos no estudo de Lopes21.
Variáveis do estudo
Definiram-se como variáveis de exposição o autorrelato de uso de agrotóxico e de tempo de uso desses produtos. Foram considerados desfechos o autorrelato de doenças endócrinas, alterações antropométricas (baixo peso, sobrepeso e obesidade), níveis alterados dos marcadores bioquímicos relacionados às alterações endócrinas tireoidianas (TSH, T3, T4 livre e CIU) e de intoxicação por agrotóxicos (ChEs e AChE).
Os valores de referência para avaliação dos marcadores bioquímicos foram considerados normais quando: TSH (µUI/mL) >0,4 a ? 4,5, T3 (ng/mL) >80 a <180, T4 livre (ng/dL) 0,7 a ?1,8 ng/dL, AChE de 0,58 a 0,95 delta ph/hora (homens) e de 0,56 a 0,94 delta ph/hora (mulheres), ChEs de 5.900 a 12.200 U/L (homens), 4.700 a 10.400 U/L (mulheres). Para nutrição de iodo, foi considerada deficiência CIU ? 99,0 µg/L, adequado entre 100 a 199 µg/L e excesso ou elevado ? 299 µg/L22-25.
Calculou-se o Índice de Massa Corporal (IMC), classificando-o de acordo com os pontos de corte estabelecidos para adultos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), estratificando-o em eutrófico IMC (?18,5kg/m² a ?24,9kg/m²), baixo peso (<18,5kg/m²), sobrepeso (? 25,0 kg/m² a <30,0 kg/m²) e obesidade (? 30 kg/m²) 26.
Aprovação ética
O projeto deriva do estudo “Fatores associados à deficiência de iodo na população rural”, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Viçosa (UFV – MG), com parecer número 4.664.517.
Análises estatísticas
Os dados foram digitados no Microsoft Office Excel® utilizando o método de dupla digitação e seguidos de validação das respostas contraditórias. As análises dos dados foram feitas no Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 23.0, e no Statistical software for data science Stata (Stata), versão 14.0. O teste Kolmogorov-Smirnov foi aplicado para verificar o padrão de distribuição das variáveis continuas. Testes não paramétricos foram empregados quando as variáveis não apresentaram distribuição normal, como o tempo de uso de agrotóxicos, enquanto testes paramétricos foram utilizados para variáveis com distribuição aproximadamente normal, como a acetilcolinesterase e a triiodotironina.
Foi realizada a análise descritiva dos dados, medidas de tendência central (médias e medianas) e de dispersão (desvio padrão, mínimo e máximo). Também foram estimadas as prevalências e respectivos intervalos de 95% de confiança (IC95%).
Para avaliar o uso de agrotóxicos e as alterações bioquímicas e antropométricas, foi utilizado o teste de qui-quadrado de Pearson ou Exato de Fisher. A correlação de Spearman foi utilizada para avaliar a relação entre as variáveis contínuas referentes aos marcadores bioquímicos, antropométricos e o tempo de exposição aos agrotóxicos.
Realizaram-se testes de comparação de grupos, utilizando t de Student e Mann-Whitney, conforme a distribuição de normalidade, para comparar variáveis antropométricas e bioquímicas em relação ao uso de agrotóxicos entre agricultores familiares.
Com intuito de explorar mais detalhadamente a relação entre o uso de agrotóxicos e alterações antropométricas, neste caso em específico o tempo de uso desses produtos (? 10 anos) e o excesso de peso (sobrepeso ou obesidade), foi realizada a regressão de Poisson com variância robusta.
Na análise univariada, as variáveis com p<0,20 foram selecionadas para a análise multivariada e permaneceram no modelo final as que apresentaram associação estatística (p<0,05) e relevância teórica. A cada etapa, as variáveis que não alteraram as razões de prevalência e os intervalos de confiança de modo significativo foram descartadas, até a obtenção de um modelo final, que foi ajustado por sexo e idade, a fim de controlar potenciais fatores de confusão, considerando que essas variáveis podem influenciar tanto a exposição27 quanto o desfecho28.
A regressão de Poisson foi executada pelo método backward e a qualidade do ajuste do modelo final foi analisada pelo Critério de Informação de Akaike (AIC), sendo selecionado o modelo com o menor valor entre os modelos testados. Para todas as análises, foi adotado um ? de 5%.
RESULTADOS
Participaram do estudo 306 agricultores familiares adultos, com média de idade de 43,5 (DP±9,1) anos, sendo 52% (n=159) do sexo masculino. Do total de agricultores, 3,5% (n=11) relataram já ter utilizado agrotóxicos no passado (exposição pregressa) e 44,1% (n=135) estavam usando no período do estudo (exposição atual), sendo a média de tempo de exposição atual 15,6 (DP±9,5) anos.
Todos os agricultores realizaram exames de sangue e de urina. De forma geral, os participantes apresentaram alterações nos níveis de TSH (5,5%; n=17), AChE (8,8%; n=27), ChEs (0,3%; n=1), T4 (1,9%; n=6), T3 (0,3%; n=1), CIU baixa (20,0%; n=60) e CIU em excesso (48,3%; n=148). Ademais, 3,9% (n=12) relataram presença de outras doenças endócrinas, especificamente o diabetes.
Em relação ao estado nutricional, a maioria apresentou excesso de peso (52,3%; n=160), destes, 35,0% (n=107) apresentaram sobrepeso e 17,3% (n=53) obesidade, já o baixo peso esteve presente em 1,0% (n=3).
O uso de agrotóxicos associou-se aos níveis elevados de iodo urinário (? 299 µg/L) (p=0,017) (RP=1,32; IC 95% 1,05 – 1,66), evidenciando que o uso atual e pregresso aumenta a prevalência de excesso de iodo em 32% (tabela 1). Além disso, os agricultores que utilizavam agrotóxicos no momento atual apresentaram maiores valores médios de AChE (p=0,01) (tabela 2).
Realizou-se análise univariada para o desfecho excesso de peso, considerando as variáveis T3, T4, TSH, AChE, ChEs, iodo urinário, idade, sexo e tempo de uso de agrotóxicos ?10 anos. Apenas as variáveis idade, sexo e tempo de uso de agrotóxicos ?10 anos apresentaram valor de p<0,20 e seguiram para a análise múltipla (Tabela 3).
No modelo múltiplo, ajustado simultaneamente por sexo e idade, observou-se associação entre tempo de uso de agrotóxicos e excesso de peso, de modo que indivíduos com tempo de uso ?10 anos apresentaram prevalência 51% maior do desfecho (RP=1,51; IC95%: 1,07–2,13; p=0,017), quando comparados àqueles que não utilizavam agrotóxicos ou o faziam por menor período (Tabela 4).
Ao avaliar a qualidade do ajuste do modelo pelo AIC, concluiu-se que o modelo está bem ajustado, pois apresentou o menor valor de AIC, em relação ao outros modelos testados.
DISCUSSÕES
Os resultados mostraram que 44% da população estudada utilizavam agrotóxicos, indicando que uma parte considerável dos agricultores familiares faz uso desses produtos. Este cenário pode ser resultado de uma série de fatores, a citar-se as isenções fiscais que esses produtos possuem, liberação de novos agrotóxicos e até mesmo pela facilidade de produção, como a dispensa de capina manual29-31.
Observou-se que agricultores expostos aos agrotóxicos apresentaram maior percentual de excesso de iodo. Apesar de a literatura ser escassa em estudos que avaliam essa relação, o estudo de Medda32 e colaboradores avaliou a exposição ocupacional ao agrotóxico mancozebe e seu metabólito (ETU), e encontraram que trabalhadores expostos a altas concentrações de ETU tiveram excreção urinária de iodo aumentada (>250 µg/L), esse excesso pode estar associado à redução temporária da disponibilidade de iodo para a síntese adequada de hormônios tireoidianos, considerando que o iodo é essencial para o funcionamento adequado da glândula tireoide. Segundo a OMS24, o excesso de iodo pode causar hipertireoidismo e tireoidite de Hashimoto.
Resultados similares têm sido encontrados em alguns estudos11,33. Calixto et al. 33 ao avaliarem a exposição indireta de mulheres que não aplicam agrotóxicos, mas vivem com parceiros que aplicam, encontraram que até mesmo o tempo de uso de agrotóxicos indireto está relacionado a consequências para a saúde, dentre elas as alterações endócrinas tireoidianas.
Kongtip e colaboradores11 investigaram os efeitos da exposição a agrotóxicos nos níveis de hormônios tireoidianos entre agricultores convencionais e orgânicos. Os autores observaram que os agricultores convencionais apresentaram níveis significativamente mais elevados de TSH, T3L, T3 e T4L em comparação aos orgânicos. Além disso, a análise indicou que a quantidade aplicada de diversos herbicidas, incluindo paraquat, acetoclor, atrazina, glifosato, diuron, alacloro, propanil e butacloro, estava associada ao aumento dos níveis hormonais, sugerindo que a exposição a esses produtos pode impactar o eixo hipotálamo-hipófise-tireoide.
No presente estudo, os marcadores tireoidianos não apresentaram alterações tão frequentes, mas a relação encontrada do uso de agrotóxicos com excesso de iodo serve como um alerta para o surgimento de alterações endócrinas tireoidianas no futuro dessa população24.
Outro achado deste estudo foi o aumento da prevalência de excesso de peso dos agricultores que relataram tempo de uso de agrotóxicos ? 10 anos. Na literatura, encontramos estudos com resultados similares. Araújo34 observou maior probabilidade de os agricultores familiares adultos que usam agrotóxicos terem excesso de peso.
Oliveira e colaboradores12 encontraram em sua revisão sistemática correlação positiva do uso de agrotóxicos com o aumento de peso e dos níveis de glicose e de insulina, evidenciando risco de desenvolver diabetes e o efeito obesogênico dos agrotóxicos. Estes autores sugeriram que esses resultados podem estar relacionados com a capacidade desses produtos de se acumularem no tecido adiposo12.
Ren e colaboradores35 sugerem que mecanismos complexos podem estar envolvidos na relação dos agrotóxicos com a obesidade, tais como indução da diferenciação de adipócitos, alterações na homeostase metabólica, na adipogênese e na microbiota intestinal, porém relatam que são necessários mais estudos para melhor compreensão desses mecanismos.
Sabe-se que a obesidade tem causa multifatorial e está relacionada com elevado consumo de alimentos ultraprocessados, calóricos, com alto teor de açúcares, gorduras, bem como sedentarismo, mas ainda existem lacunas na literatura sobre os fatores relacionados à sua causa34. De acordo com Ren e colaboradores33 “identificar todos os fatores importantes que contribuem para a obesidade é, portanto, uma questão importante e pode ajudar a controlar e reduzir a epidemia de obesidade e doenças relacionadas”35.
Em relação aos agricultores que utilizam agrotóxicos terem apresentado maiores médias de AChE, isso pode ter ocorrido devido à presença de doenças, como obesidade e outras, que são relacionadas ao aumento dessa enzima, e como visto, um percentual elevado dos participantes que utilizam e já usaram agrotóxicos apresentaram excesso de peso, o que pode ter contribuído para esse resultado37.
Diante deste cenário de aumento na utilização de agrotóxicos com alterações relacionadas ao uso desses produtos, é preocupante a exposição de agricultores familiares que estão em contato diário com esses produtos38.
Torna-se evidente a necessidade de substituir o modelo convencional de agricultura com uso intensivo agrotóxicos por práticas agrícolas não convencionais, com ênfase na agricultura familiar, pois existem na atualidade outros sistemas de produção agrícola como os de base agroecológica e orgânicas, que não dependem desses produtos e são capazes de prover alimentos mais saudáveis e que não colocam em risco a saúde humana e o meio ambiente, corroborando e respeitando os princípios da segurança alimentar e nutricional e soberania alimentar39.
Ademais, o ponto forte desse estudo foi a realização de exames bioquímicos em uma população que tem menor acesso e/ou procura a serviços de saúde40, o que possibilitou investigar de forma mais assertiva o uso de agrotóxicos através da ChEs e AChE, e as alterações nos marcadores bioquímicos T3, T4L, TSH e CIU. Além disso, este estudo traz novas contribuições científicas para a saúde pública, pois não foram encontrados estudos realizados com adultos agricultores familiares brasileiros avaliando a CIU, bem como sua relação com uso de agrotóxicos, e a literatura internacional ainda tem poucos estudos abordando essa questão.
No entanto, cabe mencionar que o estudo foi realizado no período de pandemia da COVID-19, evitando-se contato físico com os participantes, assim algumas questões foram autorreferidas, tais como peso e altura, o que pode interferir na acurácia dessas informações, sobretudo em relação ao viés de memória.
CONCLUSÃO
Os resultados encontrados demonstram que os agrotóxicos causam implicações na saúde de agricultores familiares que os utilizam, principalmente em relação aos níveis elevados de iodo urinário e ao excesso de peso.
Nesse sentido, percebe-se a necessidade do desenvolvimento de políticas públicas que incentivem práticas de agricultura não convencionais, como as de base agroecológica e orgânicas, as quais podem contribuir para a redução dos impactos do uso de agrotóxicos sobre a saúde humana e o meio ambiente.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem à Universidade Federal de Viçosa (UFV), ao Programa de Pós-graduação em Agroecologia - UFV, à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES, Brasil), à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG, Brasil), ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, Brasil) e à Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (EMATER-MG). Agradecemos também a todos os agricultores familiares que gentilmente participaram deste estudo, contribuindo de forma essencial para a realização desta pesquisa.
FONTES DE FINANCIAMENTO
Este trabalho foi apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG – BPD 01017-22), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (CAPES), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Chamada MCTIC/CNPq 2018 – Processo:439075/2018-1), Programa de Pós-Graduação em Ciência da Nutrição e Programa de Pós-Graduação em Agroecologia, ambos da Universidade Federal de Viçosa (Brasil).
REFERÊNCIAS
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