0061/2026 - Percepção de adultos brasileiros sobre seus hábitos alimentares durante a pandemia de COVID-19
Percepção de adultos brasileiros sobre seus hábitos alimentares durante a pandemia de COVID-19
Autor:
• Bianca Gonzalez Martins - Martins, BG - <bianca.g.martins@unesp.br>ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1220-103X
Coautor(es):
• Wanderson Roberto da Silva - Silva, WR - <wandersonroberto22@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8897-8772
• Pabliane de Melo Passos - Passos, PM - <pabliane.melo@unesp.br>
ORCID: https://orcid.org/0009-0007-4110-1325
• João Maroco - Maroco, J - <joao.maroco@ulusofona.pt>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9214-5378
• Juliana Alvares Duarte Bonini Campos - Campos, JADB - <juliana.campos@unesp.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7123-5585
Resumo:
Conhecer a visão do indivíduo sobre sua relação com a alimentação pode promover reflexões importantes nas áreas de Nutrição e Psicologia. Os objetivos deste estudo foram investigar a percepção de adultos sobre seus hábitos alimentares durante a pandemia de COVID-19 e comparar os relatos segundo sexo, idade, presença de sobrepeso/obesidade e presença de alimentação emocional (AE). Trata de estudo transversal (coleta de dados: 2020-2021). Os dados da percepção dos hábitos alimentares (questão aberta) foram analisados por Classificação Hierárquica Descendente (identificação de classes) e Análise de Similitude (conexão dos termos). Participaram 1.006 adultos (75,2% mulheres; 64,9% entre 18-26 anos; 64,5% sem sobrepeso/obesidade; 54,5% sem AE). Os relatos gerais apresentaram 3 classes, Corpo/Alimentação (46,3%), Rotina Alimentar (39,0%) e Consumo de Hiperpalatáveis (14,7%). O número de classes diferiu entre homens/mulheres (3x4 classes); aqueles com 18-26/27-35 anos (3x4 classes); e aqueles sem/com AE (4x5 classes). O termo compulsão se associou às emoções para mulheres e pessoas com obesidade. Em geral os relatos apontam para piora da alimentação e posterior busca por melhorá-la. O impacto da pandemia foi vivenciado por todos os indivíduos, em especial mulheres, aqueles com obesidade e que realizavam AE.Palavras-chave:
Hábitos alimentares; COVID-19; Alimentação EmocionalAbstract:
Understanding an individual's perception of its relationship with food can promote important reflections in the areas of Nutrition and Psychology. This study aimed to investigate adults' perceptions of their eating habits during the COVID-19 pandemic and to compare responses according to sex, age, presence of overweight/obesity, and emotional eating (EE). This is a cross-sectional study (data collection: 2020–2021). Perceptions of eating habits (open-ended question) were analyzed using Descending Hierarchical Analysis (identification of clusters) and Similitude Analysis (term connections). A total of 1,006 adults participated (75.2% women; 64.9% aged 18–26 years; 64.5% without overweight/obesity; 54.5% without EE). General reports revealed three clusters: Body/Food (46.3%), Eating Routine (39.0%), and Hyperpalatable Consumption (14.7%). The number of clusters differed between men/women (3 vs. 4 clusters); those aged 18–26 vs. 27–35 years (3 vs. 4 clusters); and those without/with EE (4 vs. 5 clusters). The term binge eating’ was associated with emotions in women and individuals with obesity. Overall, reports indicate a worsening in eating habits followed by subsequent efforts to improve them. The pandemic impacted all individuals, especially women, those with obesity, and those engaging in EE.Keywords:
Eating habits; COVID-19; Emotional EatingConteúdo:
A alimentação refere-se a um processo complexo que engloba não apenas o consumo de alimentos, mas também as motivações subjacentes à escolha alimentar e os mecanismos de aquisição e preparo da comida1, que são permeados pela interação entre os afetos e cognições dos indivíduos2, 3. Apesar da importância dos aspectos que antecedem a ingestão alimentar, a base das ciências nutricionais foi estruturada a partir da investigação de aspectos pós-deglutição1, 4, com foco nos mecanismos de absorção, digestão, metabolização e excreção dos compostos bioquímicos dos alimentos, muitas vezes sem considerar outros fatores que podem estar envolvidos na determinação da ingestão alimentar, além dos biológicos4. No entanto, considerando que a alimentação é um componente importante do estilo de vida, ampliar a investigação do comportamento alimentar para além da abordagem biológica tradicional da nutrição pode ser relevante, pois permite uma compreensão mais abrangente desse processo multidimensional5.
Tendo em vista que a alimentação é parte da rotina diária das pessoas, a ingestão de alimentos pode sofrer alterações diante de eventos pontuais, como celebrações6, ou emergentes, como a pandemia de COVID-197-9. Mudanças abruptas no consumo alimentar usualmente não se mantêm a longo prazo e, portanto, não se consolidam como hábitos, tornando isso um desafio das intervenções nutricionais10. O período pandêmico gerou preocupação entre pesquisadores7, 8, 11, 12 com a possibilidade de mudança no padrão alimentar, principalmente em termos da quantidade de alimentos ingerida, o que poderia promover o aumento de casos de obesidade ao redor do mundo13. Entre as explicações levantadas para o possível aumento do consumo alimentar na pandemia estava a alimentação emocional, impulsionada pelo isolamento social e pelos afetos negativos decorrentes da suspensão das atividades comuns12, 14.
Durante a pandemia, algumas pesquisas brasileiras7-9 se propuseram a avaliar a autopercepção do consumo alimentar geral ou a ingestão de alimentos específicos. Foi observada uma elevação no consumo geral de 60,8% dos participantes de um estudo com amostra de 312 brasileiros7, um aumento de 4,6% no consumo de produtos pré-prontos e de 3,7% na ingestão de snacks em comparação ao pré-pandemia, em pesquisa realizada por Malta et al.9 com 45.161 indivíduos e, no estudo de Souza et al.8, verificou-se uma prevalência de 54,3% de consumo de “comfort food” (principalmente doces) em amostra de 1.363 adultos. O rastreamento do perfil de ingestão alimentar das pessoas traz um dado importante, no entanto, o panorama apresentado é compatível com a lógica quantitativa da nutrição clássica, que não tem sido suficiente para compreender os antecedentes do consumo alimentar4, 15 ou para promover mudanças de comportamento sustentáveis2, 4. Na tentativa de suprir essa limitação, a abordagem nutrição comportamental15, 16 visa expandir as intervenções nutricionais, considerando o bem-estar psíquico, social e o contexto cultural. Isso permite a realização de protocolos seguros, inclusivos e promissores, em que o indivíduo assume o protagonismo de sua alimentação. Ao incentivar o indivíduo a refletir sobre seus hábitos alimentares e permitir sua livre expressão, uma pesquisa qualitativa17 pode alinhar-se ao caráter multidimensional da alimentação que as abordagens quantitativas frequentemente não conseguem contemplar.
Além disso, em geral, as pesquisas qualitativas costumam trabalhar com amostras reduzidas e análise de dados baseada em lexicografia básica (e.g., nuvem de palavras) e análise de conteúdo utilizando Discurso do Sujeito Coletivo18. Contudo, recomendações mais recentes17, 19 discutem a importância de considerar a multiplicidade de enfoques sobre um tema como fator relevante para estabelecimento do tamanho amostral mínimo requerido para avaliar o assunto. Como a alimentação envolve aspectos biológicos, sociais, culturais, emocionais, econômicos e cognitivos2, 20, sua investigação precisaria dispor de participantes e/ou textos suficientes para abranger os aspectos mencionados e seus desdobramentos.
Deve-se mencionar ainda, que características como sexo e a idade de uma pessoa podem influenciar seus hábitos alimentares. De acordo com a literatura, comparadas aos homens, as mulheres apresentam índices mais elevados de alimentação restritiva e emocional o que pode levar à maior ingestão de alimentos hiperpalatáveis8, 21. A faixa etária entre os 18 e 35 anos, que representa o momento da vida marcado pela aquisição de autonomia e consolidação dos próprios comportamentos em hábitos, também tem sido reconhecida como diferencial para a alimentação22, 23. De maneira geral, os adultos mais jovens apresentam maior probabilidade de praticar alimentação emocional e descontrole alimentar do que os mais velhos21, 23, o que tem sido associado ao maior repertório dos mais velhos para lidar com adversidades e ao fato de já ter adquirido experiência na gestão das próprias emoções, sem necessariamente utilizar o alimento para alívio das tensões.
Outras duas condições que merecem destaque no estudo dos hábitos alimentares são o estado nutricional antropométrico e a prática de alimentação emocional. Estudos6, 15, 20, 21 apontam que indivíduos com sobrepeso/obesidade podem vivenciar maior estigma social em decorrência do peso corporal, se engajando em comportamentos mais disfuncionais, potencialmente falhando na manutenção de uma restrição a longo prazo21, 24 e apresentando episódios de descontrole alimentar2, 25. A investigação da prática de alimentação emocional no contexto dos hábitos alimentares se justifica tanto pelo processo de desconstrução cognitiva subjacente ao comportamento26, quanto pela influência desse processo sobre o perfil de alimento27 que as pessoas costumam procurar em busca de conforto (i.e., hiperpalatáveis).
Considerando o exposto, realizou-se o presente estudo com objetivos de i) investigar a percepção de indivíduos adultos sobre seus hábitos alimentares durante a pandemia de COVID-19 e ii) comparar os relatos de acordo com sexo, faixa de idade, ausência/presença de sobrepeso/obesidade e ausência/presença de prática de alimentação emocional.
Métodos
O presente estudo trata de pesquisa transversal com amostra não-probabilística. Adotou-se como critérios de inclusão a idade de 18 a 35 anos e residir no Brasil. A coleta dos dados foi realizada via Google Forms, entre novembro/2020 e março/2021, período em que a pandemia de COVID-19 estava em curso no país.
A divulgação do link da pesquisa foi realizada a partir de convites enviados para os e-mails institucionais de graduandos, pós-graduandos e servidores de uma universidade pública brasileira. Utilizou-se também as mídias sociais para distribuição da pesquisa. Recorreu-se à amostragem em bola de neve28, em que solicitava-se ao participante que divulgasse o link com outros potenciais respondentes. Apenas foram incluídos no estudo aqueles que declararam aceitar participar da pesquisa, informação apresentada no início do formulário virtual, junto ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNESP (CAAE: 38041520.1.0000.5426).
Cabe esclarecer que o presente estudo trata de pesquisa aninhada a um projeto mais amplo de investigação da Atitude Alimentar de adultos durante a pandemia, a partir da utilização de instrumentos psicométricos6, 16 e, portanto, o cálculo de tamanho mínimo amostral foi realizado considerando a necessidade de respondentes para as análises quantitativas (284-296 adultos), uma vez que esse contemplaria a recomendação para análise qualitativa de 20 a 30 indivíduos29. Contudo, como referências recentes17, 19 consideram que o tamanho amostral em pesquisa qualitativa deve ser orientado pela complexidade do tema de estudo realizou-se uma ampla coleta de dados para obter amostra alargada, na qual os discursos abrangessem as diferentes conjunturas da alimentação.
Para caracterização amostral foram levantadas informações como sexo (masculino, feminino, não-binário, prefiro não informar), idade (em anos) e renda mensal familiar (de R$0 a R$1.254,00; R$1.255,00 a R$2.004,00; R$2.005,00 a R$8.640,00; de R$8.641,00 a R$11.261,00 e acima de R$11.262,00). O peso e altura autorreferidos foram utilizados para cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC) e classificação do estado nutricional antropométrico30. Em relação à alimentação durante a pandemia, perguntou-se aos participantes se eles percebiam alterações na própria alimentação (não, sim), como percebiam tal alteração (diminuiu muito, diminuiu, nem diminuiu, nem aumentou, aumentou, aumentou muito) e se acreditavam na influência das emoções na alimentação (nunca, às vezes, sempre).
A alimentação emocional foi investigada a partir de 3 itens do Questionário Alimentar de Três Fatores (TFEQ-18)31, que mencionam comer em estados de ansiedade, tristeza e solidão, aspectos comuns durante pandemia. A validade e a confiabilidade dos dados do TFEQ-18 foi previamente atestada para amostra similar16 (índices de validade: Comparative Fit Index [CFI]=0,94; Tucker-Lewis Index [TLI]=0,93; Root Mean Square Error of Approximation [RMSEA]=0,075; Standardized Root Mean Square Residual [SRMR]=0,06; confiabilidade: ?ordinal=0,82-0,88). A alimentação emocional foi analisada a partir do escore médio dos itens, sendo que valores entre 0 e 2,50 representaram ausência de alimentação emocional e ? 2,51 sugeriram sua presença31.
A pergunta aberta “Tem mais alguma informação que você gostaria de partilhar conosco com relação a seus hábitos alimentares durante esse momento de pandemia que estamos passando?” possibilitou que os participantes se expressassem livremente (sem limite de caracteres). As respostas foram exportadas para planilha do Excel (.xlsx) e um corpus textual (CT) foi elaborado para condução de análise lexicográfica. A estrutura do CT consistia em uma linha de comando com informações demográficas em outra com o relato. Símbolos como “”, $, #, - (hífen), *, %, ... e ( ) foram removidos por incompatibilidade com o programa. Algumas respostas precisaram ser ajustadas para permitir análise coerente das informações, assim, a expressão café da manhã foi adaptada para “café_da_manhã”. Além disso, padronizou-se expressões que permitiam interpretações distintas que contaminariam a análise (e.g., “na pandemia passei a comer mais” foi alterado para “na pandemia passei a comer_mais” (mais detalhes no Material Suplementar)).
Para avaliação dos textos, considerou-se a necessidade de aproveitamento de no mínimo 75% do conteúdo inserido no programa32, 33. Foram conduzidas: i) Classificação Hierárquica Descendente (CHD), que permite a identificação de classes amplas nos discursos, além da avaliação da sobreposição entre tais classes, tanto para amostra total quanto segundo característica de interesse como sexo, faixa de idade (18-26 anos vs. 27-35 anos, classificação de Bonnie et al.22), ausência/presença de sobrepeso/obesidade e ausência/presença de alimentação emocional; e ii) Análise de Similitude, que permite identificar a conexão entre as palavras e, assim, compreender a estrutura dos discursos. Essa análise também foi conduzida para amostra geral e segundo as características de interesse.
As análises qualitativas foram conduzidas no programa Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires - Iramuteq®34.
Resultados
Participaram do estudo 1.006 adultos, com média de idade de 25,0 anos (desvio-padrão[DP]=4,5). Houve maior participação de mulheres (75,2%), adultos com 18 a 26 anos (64,9%), com renda mensal familiar entre R$2.005,00 e R$8.640,00 (52,6%), com peso normal para altura (59,7%) e sem alimentação emocional (54,5%). Frente à pandemia de COVID-19, a maioria dos respondentes relatou ter notado alterações na alimentação (71,2%) e percebido influência das emoções na alimentação (94,6%) (mais detalhes em Material Suplementar).
Dos 1.006 participantes, 995 relataram a percepção de seus hábitos alimentares durante a pandemia (98,9%), resultando em 1.104 segmentos de texto, 22.301 palavras e 2.621 palavras distintas, sendo que 1.330 termos apareciam uma única vez nos relatos.
Na CHD, o Iramuteq® aproveitou 86,5% dos textos, o que foi considerado adequado. Os resultados apontaram que os relatos dos participantes se dividiram em 3 classes com baixa sobreposição entre as mesmas, o que indica foco específico e definido dos discursos. Os principais assuntos abordados referiam-se a questões envolvendo i) corpo e alimentação, ii) rotina alimentar durante a pandemia de COVID-19 e iii) consumo de alimentos, principalmente hiperpalatáveis, na pandemia (Figura 1).
[INSERIR FIGURA 1]
Os principais termos associados à classe “corpo e alimentação” foram ansiedade, quilo, peso, engordei, compulsão, pandemia, dieta e nutricionista. Os relatos apontaram para a percepção de que a ansiedade pode ter contribuído para um aumento na ingestão alimentar, levando ao ganho de peso. Na classe “rotina alimentar”, os termos mais associados foram casa, refeição, cozinhar, preparar, tempo, comer, alimento, restaurante universitário, faculdade e cozinha. Os participantes destacaram que o isolamento social levou a mudanças em suas rotinas alimentares, sendo a principal o fato de cozinharem em casa, muitas vezes pelo fechamento dos restaurantes das universidades, e a crença de que preparar as próprias refeições promoveria uma alimentação mais saudável. Na classe “hiperpalatáveis”, as palavras consumo, doce, aumento, ingestão, açúcar, álcool, apetite e fast-food foram significativas, sendo que os relatos apontam para a percepção da alimentação enquanto válvula de escape, momento de lazer e busca de conforto para as emoções negativas vivenciadas na pandemia.
A comparação da percepção dos hábitos alimentares de acordo com o sexo dos participantes encontra-se na Figura 2. O aproveitamento dos textos foi de 62,9% para os homens e 91,9% para as mulheres. Os relatos dos homens apresentaram três classes sem sobreposição, similar à amostra geral, sendo os principais temas i) a rotina alimentar de se alimentar em casa durante o período de isolamento social, ii) a busca por uma alimentação mais saudável e equilibrada associada à redução do exercício físico e iii) o consumo de produtos hiperpalatáveis associado à percepção do aumento dos níveis de ansiedade. Já os relatos das mulheres apresentaram 4 classes, sendo i) a rotina alimentar que envolve, de modo diferente dos homens, o preparo das refeições, ii) o aumento no consumo de produtos hiperpalatáveis, iii) a crise emocional vivenciada na pandemia como fator potencialmente desencadeador de episódios de compulsão alimentar, tema sobreposto ao iv) reconhecimento do descontrole alimentar e busca por equilíbrio após a sensação de perda de controle sobre a ingestão alimentar. Na análise de similitude para os homens, destacou-se a menção à prática de exercício físico durante a pandemia e a associação com a saúde, o fato de terem começado dietas e a presença da ansiedade como desencadeadora do consumo de doces. Para as mulheres, o consumo de doces esteve relacionado a um maior apetite por esses produtos, sendo importante também destacar os relatos que mencionaram episódios de compulsão alimentar na pandemia.
Cabe esclarecer que devido à baixa participação de indivíduos que se denominavam não-binários quanto ao sexo (n=3), não foi possível realizar as análises de seus relatos de maneira padronizada.
[INSERIR FIGURA 2]
A avaliação dos relatos dos indivíduos segundo a faixa de idade encontra-se na Figura 3. O aproveitamento dos textos foi superior a 70% em ambos os grupos. Para os participantes com idades entre 18 e 26 anos, emergiram 3 classes, que versaram sobre os temas de corpo/alimentação (45,6% das respostas) e sobre o consumo alimentar na pandemia, subdividido entre a rotina alimentar de preparo de alimentos em casa (34,5%) e o padrão alimentar de ingestão de alimentos caseiros, de pedir lanches ou refeições por aplicativo (19,9%). Entre os indivíduos com idade de 27 a 35 anos, 4 classes foram obtidas, sendo os principais temas o aumento do consumo de açúcar e álcool (28,3% dos relatos), a relação entre as emoções, a alimentação e o peso corporal (26,7%) e, de modo similar aos adultos jovens, o consumo alimentar na pandemia com as mesmas subdivisões (45,0%). De acordo com a análise de similitude, a palavra compulsão apareceu mais associada à ansiedade entre os adultos mais jovens e à pandemia para os mais velhos.
[INSERIR FIGURA 3]
Na Figura 4 apresenta-se as classes identificadas nos relatos de indivíduos sem e com condição de sobrepeso/obesidade. Para ambos foram identificadas 3 classes e o aproveitamento dos textos foi superior a 85%, sendo a principal diferença entre os grupos a distribuição dos relatos nas classes. Para indivíduos sem sobrepeso ou obesidade (n=595), um terço dos relatos mencionava o consumo de hiperpalatáveis, 33,7% dos textos mencionavam o impacto das alterações alimentares no próprio corpo e os demais descreviam a rotina de preparo de refeições e a permanência em casa no isolamento social. No grupo de indivíduos com sobrepeso/obesidade 43,9% dos relatos abordavam a rotina alimentar na pandemia, 41,4% focavam na relação entre o corpo e a alimentação e 14,7% referiam-se ao consumo de hiperpalatáveis. As palavras “compulsão” e “delivery” apareceram associadas à classe dos hiperpalatáveis para o grupo sem sobrepeso e junto aos relatos de corpo e alimentação (compulsão) e rotina alimentar (delivery), respectivamente, entre indivíduos com sobrepeso. A principal diferença nos relatos de indivíduos com peso normal para altura e aqueles com obesidade, pela análise de similitude, residiu no fato de que aqueles com obesidade relacionaram a pandemia com o desenvolvimento ou agravamento da compulsão alimentar além do fato de haver baixa prevalência de redução do consumo de doces.
[INSERIR FIGURA 4]
A identificação dos temas abordados por indivíduos sem e com alimentação emocional encontra-se na Figura 5. O aproveitamento dos CT foi superior a 80%. A partir dos relatos dos indivíduos que não apresentavam alimentação emocional (n=542) emergiram 4 classes. Os temas das duas primeiras classes (38,9% dos relatos) mencionavam o impacto da ansiedade na alimentação e como isso se refletia no peso corporal, de modo que houve intensa sobreposição entre essas classes. A terceira classe apresentava como objeto principal a descrição da rotina alimentar (34,0%) e suas alterações na pandemia e a última classe tratava do consumo de produtos hiperpalatáveis (27,1%) e bebidas alcoólicas. Dos relatos dos participantes com alimentação emocional presente (n=453) 5 classes foram identificadas. A primeira classe abordava o aumento no consumo de fast-food, doces, refrigerantes e outros hiperpalatáveis na pandemia (17,8%). As classes 2 e 3 tratavam, respectivamente, do preparo dos alimentos e do tempo de permanência em casa durante o isolamento social, de maneira totalmente sobreposta (46,8%). Na mesma perspectiva do grupo sem alimentação emocional, as classes 4 e 5 trataram, com sobreposição, do impacto da ansiedade na alimentação e do reflexo da mudança dos hábitos alimentares no corpo do indivíduo, com destaque para o peso corporal (35,4%). Segundo a análise de similitude, o apetite por doce e a ingestão alimentar em maior quantidade permearam os relatos daqueles com alimentação emocional presente, enquanto a crença de que a alimentação melhorou no âmbito da pandemia ficou mais evidente no grupo sem alimentação emocional.
[INSERIR FIGURA 5]
Discussão
O presente estudo avaliou a autopercepção de adultos de seus hábitos alimentares durante a pandemia de COVID-19 utilizando abordagem qualitativa. Percebeu-se, de modo geral, que os indivíduos notaram impacto das emoções em sua alimentação e que essa influência foi mais evidente entre mulheres, aqueles com sobrepeso/obesidade e que buscavam por alimentos diante da solidão, tristeza e, principalmente, ansiedade. Apesar dos aspectos em comum que o presente trabalho pode compartilhar com outros estudos7, 35 que se propuseram a investigar os hábitos alimentares entre adultos brasileiros na pandemia, há diferenças na informação coletada, que consistiu em uma pergunta aberta permitindo a livre expressão do participante17. Isso possibilitou um aprofundamento na autopercepção da alimentação, por meio da reflexão sobre episódios de compulsão e as oscilações de peso corporal vivenciadas nesse período. Apesar de essas informações poderem ser obtidas em escalas do tipo Likert, elas seriam compartimentalizadas, reforçando as tendências quantitativas. Cabe mencionar que no desenvolvimento da nutrição enquanto ciência da saúde, explorar o caráter biopsicossocial da alimentação, utilizando novas estratégias de coleta, pode trazer contribuições para o entendimento dos fenômenos sociais subjetivos atrelados à alimentação.
O fato de a maior parte dos relatos estarem voltados à relação entre corpo e alimentação suscita reflexões sobre a permeação entre os mesmos, uma vez que o relacionamento do indivíduo com seu corpo pode interferir diretamente no modo como o mesmo se alimenta36 e vice-versa. Nessa perspectiva, os padrões estéticos vigentes nas culturas ocidentais acabam tendo influência no discurso nutricional adotado37, enaltecendo a prática de dietas extremamente restritivas e criando um cenário propício à lipofobia. Chama a atenção nessa classe a alta prevalência de indivíduos que relataram ter descontado suas frustrações na alimentação na pandemia e, após notarem o próprio ganho de peso (que variou de 2 a 20 quilos), buscarem compreender melhor o impacto das próprias emoções no comportamento adotado.
O papel da ansiedade enquanto potencial desencadeadora da ingestão alimentar corrobora as teorias clássicas do comportamento alimentar6, 15, 21, 26, 38, que mencionam que indivíduos ansiosos transicionam seu foco de atenção na tentativa de aliviar o desconforto promovido pela emoção, o que pode favorecer o consumo de produtos hiperpalatáveis (comfort food, i.e., alimentos ricos em sal, açúcar e/ou gorduras), aspecto também apontado em 14,7% dos discursos. Reconhecer esse padrão de funcionamento psíquico pode ser decisivo para que o indivíduo desenvolva autoconsciência de seus hábitos, etapa importante no processo de mudança de comportamento2.
Outro destaque nos relatos foi o fato de ter havido mudanças na alimentação em decorrência do isolamento social estabelecido para conter a disseminação do vírus da COVID-19, o que vai ao encontro do estudo de Coulthard et al.11. Na investigação conduzida por esses autores11, a percepção de um comportamento alimentar menos saudável se sobressaía, o que era refletido pelo maior consumo que o usual de alimentos de alta densidade energética e menor consumo de frutas/vegetais. Em nossos achados, os participantes mencionaram acreditar que o fato de cozinhar em casa tornava sua alimentação mais saudável, embora 51,4% tenham reportado aumento na quantidade de alimentos ingerida. O conceito de dieta saudável, segundo Ogden39, reflete a quantidade de ingestão recomendada dos macronutrientes, numa perspectiva majoritariamente biologicista que tem sido questionada pela Nutrição Comportamental2, 4. Essa visão não desconsidera essa quantidade, mas valoriza também o contato do indivíduo com os alimentos de sua escolha, incluindo o plano de aquisição e o tempo de preparo das próprias refeições, podendo essa ser uma das estratégias de promover o protagonismo do paciente em sua alimentação2, por estar alinhada a uma perspectiva biopsicossocial.
As diferenças dos discursos apresentados entre homens (3 classes sem sobreposição) e mulheres (4 classes com sobreposição) encontra respaldo em pesquisas que apontam maior experiência de alimentação emocional e descontrole alimentar por mulheres11, 21, 40 diante de crises emocionais. O isolamento social vivenciado durante a pandemia pode ter desencadeado uma crise emocional, a qual pode estar relacionada ao sentimento de solidão, já associado à alimentação emocional em pesquisas prévias21, 31, 41. A maior experiência de solidão feminina pode estar enraizada no processo de socialização distinta entre meninos e meninas nas sociedades ocidentais, o que se reflete nas necessidades emocionais na vida adulta41, 42, de modo que as mulheres, em geral, apresentam demandas afetivas mais complexas que se satisfazem por meio de múltiplas interações sociais41. Somando isso à sobrecarga e acúmulo de funções que as mulheres vivenciaram durante a pandemia, fato reportado por Barbosa-Souza et al.43 e também indicado por nossos resultados ao comparar a categoria Rotina Alimentar segundo sexo (Mulheres: “cozinhar/preparar refeição”; Homens: “Comer, casa, mãe”), percebe-se que as mulheres podem ter encontrado nos alimentos hiperpalatáveis alívio das tensões26 e consolo14 para lidar com os desfechos da pandemia.
Na comparação dos discursos apresentados de acordo com a idade dos participantes, chama a atenção ter emergido uma categoria específica para o aumento do consumo de álcool e de doces/açúcar entre os adultos com idade de 27 a 35 anos. Essa fase da vida, em geral, representa a saída do adulto da universidade e ingresso no mercado de trabalho22, sendo as relações sociais importantes para criação de vínculos afetivos e profissionais44. A interrupção na rotina para esses adultos pode ter contribuído para mantê-los sem perspectiva de futuro, o que, por sua vez, pode ter desencadeado episódios de alimentação emocional e descontrole alimentar para lidar com os prejuízos físicos, emocionais e sociais da pandemia. Já para adultos jovens (18-26 anos), esses por sua vez, reportaram ter retornado à casa de suas famílias, mencionando a adaptação à uma nova rotina alimentar onde as escolhas ocorriam em grupo3, 45, o que pode ter promovido uma redução em sua autonomia alimentar, justificando parcialmente a noção de compulsão na alimentação e de maior ingestão de alimentos no período pandêmico, corroborado pela ansiedade e incerteza de futuro sobre o retorno à rotina conhecida.
Sabe-se que a obesidade, além dos potenciais impactos negativos à saúde, como disfunções metabólicas e doenças cardiovasculares30, 46, está frequentemente associada a estados emocionais como ansiedade e depressão47, muitas vezes agravados pelo estigma social24, 46, 48. Esses estados afetivos foram marcantes no cluster “Corpo e Alimentação” (41,4%) dos indivíduos com sobrepeso/obesidade e estiveram associados à percepção de episódios de compulsão alimentar. Esse achado corrobora a teoria de associação entre obesidade e emoções de Schachter apresentada por Canetti et al.20. Isso ocorreria por uma percepção aprendida em que os sinais fisiológicos de fome/saciedade e o desconforto dos sintomas de ansiedade e de estresse se sobrepõem, dificultando a identificação da necessidade fisiológica de ingestão calórica20. Além disso, estruturas cerebrais, como os circuitos de recompensa, e as interações entre neurotransmissores, nutrientes e outros moduladores químicos podem interferir na relação entre emoções e ingestão alimentar47, assim como o próprio processo de desconstrução cognitiva26, que pode promover alívio imediato das emoções aversivas, se consolidando como um hábito e promovendo ganho de peso ao longo do tempo.
A alimentação emocional vem despertando interesse há mais de 20 anos entre pesquisadores6, 14, 20, 38, 49. Durante a pandemia de COVID-19, o estresse promovido pelo isolamento social prolongado aumentou a preocupação dos cientistas com as consequências de uma alimentação majoritariamente baseada nas emoções, seja na busca pelo lazer39, como mencionado nos discursos, ou na utilização do alimento como consolo e/ou recompensa20, 26. Indivíduos com alta alimentação emocional apresentaram discursos mais direcionados ao impacto que percebiam da ansiedade em sua alimentação, enquanto aqueles sem ou com essa condição baixa mencionavam outros tópicos, como a ausência de exercício físico e a percepção de melhora na alimentação por comer em casa. Um estudo conduzido por Bozkurt et al.50 em 2024, encontrou associação positiva entre alimentação emocional e comportamentos de adição alimentar (OR=1,31 [IC95%=1,23-1,38]). A estruturação da alimentação emocional enquanto hábito pode modular sistemas neuroquímicos do cérebro e interferir nos circuitos de recompensa da via dopaminérgica, alterando a função típica do núcleo accumbens cerebral, o que pode gerar um hiperfoco na alimentação20, 50, favorecendo o desenvolvimento de desejos alimentares, principalmente por produtos hiperpalatáveis.
O presente estudo apresenta limitações como o desenho transversal, que não permite a inferência direta de relações de causa/efeito e a amostra não-representativa do Brasil, uma vez que a coleta online é limitada em termos de acesso e indivíduos com estratos de renda mais baixos não puderam ser incluídos. Contudo, diante da pandemia, a utilização de formulários remotos foi uma alternativa viável para disseminação de protocolos de pesquisa, por respeitar o distanciamento social. Destaca-se, ainda, que em geral, estudos que trabalham com dados qualitativos costumam apresentar amostras pequenas (n=30-50)29, o que nem sempre pode ser considerado suficiente para contemplar as nuances do assunto investigado17, 19. Assim, diante de um tema como a percepção do próprio hábito alimentar, a utilização de amostra alargada, conforme realizado no presente estudo, trata de estratégia pertinente e adequada, por refletir melhor a variabilidade possível entre as respostas.
É importante mencionar que apesar do estado de pandemia ter finalizado em 5 de maio de 2023, os hábitos construídos ao longo dos dois anos de isolamento social podem trazer consequências de longo prazo para a vida das pessoas, sendo isso relevante para se compreender a percepção dos indivíduos sobre suas escolhas alimentares e os comportamentos adotados visando assim elaborar ações educativas e de intervenção clínica mais alinhadas às necessidades específicas de cada população. Para futuros estudos, sugere-se reavaliação da relação dos indivíduos com a própria alimentação em momentos posteriores à pandemia para compreender se a suscetibilidade às emoções tratou de um panorama percebido durante a COVID-19 ou se durante um período de execução corriqueira de atividades as pessoas notam o mesmo impacto das emoções sobre a própria alimentação.
Conclusão
A percepção dos participantes foi de que seus hábitos alimentares pioraram na pandemia de COVID-19, em termos de quantidade e qualidade, com subsequente busca por melhorar a alimentação, o que também foi descrito no contexto do peso corporal com ganho inicial e posterior redução. O preparo de alimentos em casa foi considerado mais saudável e os doces foram os hiperpalatáveis mais destacados nos discursos. O impacto da pandemia de COVID-19 foi vivenciado por todos os participantes; contudo, especialmente entre as mulheres, pessoas com obesidade e aquelas que apresentavam alimentação emocional, tendo sido relatados episódios de compulsão, aspecto importante a ser considerado no manejo clínico desses grupos específicos.
Financiamento
Agradecemos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES – Código de Financiamento 001) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP Processos: 2017/18679-0, 2024/07505-5 e 2024/07438-6) pelo financiamento concedido aos autores do presente estudo.
Declaração de Disponibilidade de Dados
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