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0095/2026 - Redes de apoio social e condições de saúde de mulheres idosas familiares de policiais militares do Estado do Rio de Janeiro
Social support networks and health conditions of elderly female family members of military police officers in the State of Rio de Janeiro

Autor:

• Alessandra Gonçalves Carvalho - Carvalho, AG - <alecarvalhosocial@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0005-2597-1721

Coautor(es):

• Edinilsa Ramos de Souza - Souza, ER - <edinilsaramos@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0903-4525

• Bruno Costa Poltronieri - Poltronieri, BC - <bruno.poltronieri@ifrj.edu.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2127-0574

• Adalgisa Peixoto Ribeiro - Ribeiro, AP - <adalpeixoto@yahoo.com.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9415-8068



Resumo:

Este artigo investiga as condições de saúde e as redes de apoio social das familiares idosas de Policiais Militares do Estado do Rio de Janeiro. É uma pesquisa qualitativa, do tipo exploratório, em que foram realizadas nove entrevistas semiestruturadas, com mulheres idosas de 60 anos ou mais, familiares (quatro mães) e dependentes (três viúvas e duas esposas) de policiais militares da ativa, veteranos ou falecidos, sendo sete praças e quatro oficiais. Os dados foram submetidos à análise de conteúdo, modalidade temática. Os resultados mostram que as idosas pertencem ao estrato socioeconômico médio baixo. Sofrem impactos na saúde física e mental: pela perda precoce decorrente de homicídio (duas), outras causas (duas) do policial e por mudanças (duas) do local de moradia devido à violência (ameaças e risco de vida). Verificou-se que prepondera o apoio da rede informal, sobretudo da família. Sugeriram melhorias nos serviços de saúde da corporação e nas condições de trabalho do policial militar. Conclui-se que o acesso a uma rede de apoio formal conjugada com uma rede de apoio informal pode reduzir danos à saúde física e mental, e melhorar as condições de vida de mulheres idosas.

Palavras-chave:

Redes de Apoio; Saúde de mulheres Idosas; Polícia Militar

Abstract:

This article investigates the health conditions and social support networks of elderly female family members of Military Police Officers in the State of Rio de Janeiro. This is a qualitative, exploratory study that involved nine semi-structured interviews with elderly women aged 60 or older, family members (four mothers), and dependents (three widows and two wives) of active-duty, veteran, or deceased military police officers—seven enlisted men and four officers. The data were subjected to thematic content analysis. They suffer impacts on their physical and mental health: due to premature loss resulting from homicide (two), other causes (two) of police officer deaths, and changes (two) in their place of residence due to violence (threats and risk to life).Support from informal networks, especially family, was found to predominate. Improvements in the corporation's health services and in the working conditions of military police officers were suggested. It is concluded that access to a formal support network combined with an informal support network can reduce harm to physical and mental health and improve the living conditions of older women.

Keywords:

Support Networks; Elderly Women's Health; Military Police

Conteúdo:

Introdução
O envelhecimento populacional é um processo em franco crescimento no Brasil e no mundo, com previsão de atingir 1,2 bilhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2025, segundo Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS)1. Nesse contexto, destaca-se a feminização da população idosa, que constitui um fenômeno complexo e multifacetado, que extrapola dados estatísticos2 visto que as condições de saúde, trabalho e cidadania de mulheres idosas resultam de experiências acumuladas ao longo de toda vida3. Embora a população feminina apresente em média pelo menos oito anos a mais que a masculina, essa maior longevidade não corresponde necessariamente a uma melhor qualidade de vida4. As relações de gênero e outras as formas de discriminação, como a classe social e a cor da pele podem influenciar sobremaneira as condições de saúde e a qualidade de vida das mulheres ao longo da vida e na velhice3,4. Todas essas condições impactam nas demandas por políticas públicas e prestação de serviços de proteção social5.
As mulheres idosas familiares de agentes da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), objeto deste estudo, se inserem nesse contexto de vulnerabilidades. Os agentes da Polícia Militar e suas famílias possuem condições de vida peculiares, pois devido à natureza de sua atividade profissional, estão expostos a riscos cotidianos. Este risco é evidenciado pelas mais elevadas taxas de mortalidade e morbidade decorrentes de agressões sofridas dentro e fora do trabalho desses profissionais, comparadas às da população em geral, o que impõe a esse grupo familiar uma sobrecarga de cuidados, pela vulnerabilidade socioeconômica e pela exposição à violência6. Um indicador relevante dessa estrutura é o dado do Rioprevidência (2020), que aponta que as pensionistas militares representam 21% do total de pensionistas do estado, o que inclui descentes e ascendentes diretos, cônjuges e outros dependentes7, reforçando a dimensão desse contingente feminino dependente do sistema de proteção militar.
Destaca-se que a baixa condição social e econômica da mulher, aliada às questões de gênero e à maior longevidade são fatores de risco para as violências, principalmente a violência doméstica8. O envelhecimento traz à tona discussões acerca dos direitos dos idosos, sendo que a baixa condição social e econômica da mulher pode ser tanto causa como consequência da violência de que é vítima9.
Para enfrentar tais desafios, o fortalecimento da rede de apoio social constitui uma estratégia política fundamental. A rede de apoio social é aqui compreendida como um sistema aberto e multicêntrico que, por meio de trocas dinâmicas entre família, vizinhança e instituições, potencializa recursos para resolver problemas ou satisfazer necessidades10. Esse apoio pode ser classificado em dimensões material, instrumental, informativa e afetiva11. Nesse contexto, a rede de apoio social atua como uma espécie de teia de relações de troca, marcada por obrigações recíprocas e laços de dependência mútua8.
A falta de acesso a uma mínima rede de apoio, ou como denominam Guedes, et al.10 uma rede de apoio inadequada para pessoas idosas pode acarretar diversos danos para sua saúde, como exposição a situações de risco e vulnerabilidade, risco de sofrer algum tipo de violência, de cometer suicídio, e consequentemente levando ao aumento de mortalidade por causas externas (acidentes e violências).
Diante da escassez de visibilidade deste grupo específico na produção do conhecimento na área da saúde coletiva, o presente estudo busca investigar as redes de apoio e as condições de saúde autorreferidas por mulheres idosas familiares de agentes da PMERJ. Parte-se do pressuposto de que o acesso a essas redes é determinante para o cuidado integral e o fortalecimento da proteção social na interface entre gerontologia e segurança pública.

Material e Método
Trata-se de um estudo de abordagem metodológica qualitativa, do tipo exploratório, que buscou identificar e analisar as percepções, opiniões e crenças de mulheres idosas, com vínculo familiar com policiais militares, sobre sua saúde e a rede de apoio formal e informal. De acordo com Minayo12 o método qualitativo é o que se aplica ao estudo da história, das relações, das representações, das crenças, das percepções e das opiniões, produtos das interpretações que os humanos fazem a respeito de como vivem, constroem seus artefatos e a si mesmos, sentem e pensam.
O grupo participante do estudo foi composto por uma amostra de conveniência de mulheres idosas, familiares de agentes da Polícia Militar, com idade de 60 ou mais anos, em conformidade com o Art. 1º do Estatuto da Pessoa Idosa13. Foram caracterizadas como familiares mães, esposas, companheiras e viúvas, reconhecidas pela Polícia Militar como dependentes ou pensionistas de acordo com o Estatuto da Polícia Militar7.Foram considerados todos os níveis hierárquicos: de Soldado a Coronel PM, ativos, veteranos ou falecidos.
Os critérios de inclusão previam a participação de mulheres com 60 ou mais anos, lúcidas, usuárias da Assistência Social da Polícia Militar; e foram excluídas mulheres com vínculo familiar/institucional com menos 60 anos e com problemas de saúde que as impediam de participar da entrevista, como, por exemplo, problemas de saúde mental ou transtornos neurocognitivos.
Ao todo foram selecionadas 94 (noventa e quatro) famílias no perfil escolhido, a partir dos arquivos de policiais militares e seus familiares atendidos na Diretoria Geral de Assistência Social/DGAS /SEPM nos seus respectivos serviços, programas e instrumentais de registros14. Os convites foram realizados através de contato telefônico e de forma presencial na DGAS, onde era esclarecido o objetivo desta pesquisa e sua participação voluntária.
Realizou-se entrevistas semiestruturadas, a partir de um roteiro que continha três blocos de questões, que contemplavam o perfil socioeconômico das participantes entrevistadas; as condições de vida e de saúde das participantes; e sobre as redes de apoio formais e informais das participantes entrevistadas. Todas as entrevistas foram realizadas de forma presencial nos seguintes locais: cinco entrevistas foram realizadas no auditório da DGAS, duas no domicílio da entrevistada, uma no local de trabalho e uma em sala alugada no Centro (RJ).
As entrevistas foram aplicadas, transcritas de forma literal, e conferidas pela pesquisadora. Após esta etapa, todo o acervo foi organizado de acordo com o vínculo familiar e/ou institucional da entrevistada e da situação atual do policial militar de referência (Ativo, Veterano ou Falecido). Com o objetivo de preservar o anonimato das participantes, um nome fictício foi designado para cada uma delas.
O acervo de informações foi analisado por meio da técnica de Análise de Conteúdo, modalidade temática, conforme recomendado por Minayo12 que a descreve como um conjunto de técnicas de análise da comunicação que, por meio de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo permite extrair indicadores - quantitativos ou não - capazes de fundamentar inferências acerca das condições de produção e recepção dessas mensagens.
A modalidade de Análise Temática consiste em identificar os núcleos de sentido que compõem uma comunicação, cuja presença ou frequência signifiquem alguma coisa para o objeto analítico visado11. Para Bardin15 a Análise temática é transversal, perpassa todas as entrevistas através de categorias já explicitadas nos conteúdos, sendo dada mais ênfase à frequência dos temas obtidos no conjunto das entrevistas, classificados como informações segmentáveis e comparáveis.
A análise dos dados apresenta no Quadro 1 o perfil socioeconômico das participantes e, a partir dos seus relatos, busca identificar as percepções sobre as redes de apoio formal e informal com que contam, como percebem suas condições de vida e de saúde, bem como quais sugestões dão para melhorar os serviços da corporação.
Foram cumpridos todos os procedimentos éticos de pesquisas com seres humanos, de acordo com a Resolução n° 510/1616 do Conselho Nacional de Saúde; e de acordo com a Resolução SEPM n° 278 de 30 de janeiro de 202017.
Para a realização desta pesquisa foi solicitada autorização a duas comissões de avaliação das questões éticas de pesquisa com seres humanos: Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento (EPD)/Coordenadoria de Assuntos Estratégicos (CAES) da PMERJ, e aprovado em 23/12/21 com o número 25845094; e Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente IFF (FIOCRUZ), aprovado pelo Parecer Consubstanciado n° 5.351.991, em 14/04/22.
Todas as participantes tiveram assinaram o Registro de Consentimento Livre e Esclarecido (RCLE). A fim de minimizar os desconfortos devido ao tema e às lembranças despertadas foi também oferecido suporte psicológico, atendimento social, outros serviços disponibilizados pela corporação e pela rede externa.
É importante considerar que as etapas desta pesquisa ocorreram durante o período da pandemia de Covid-19, que teve início em 2020. Por esse motivo, considera-se importante destacar o que afirma Kalache et al.18 sobre o contexto pandêmico e alguns fatores agravantes para a população idosa brasileira, momento que exigiu solidariedade intergeracional e interdisciplinar da sociedade.

Resultados
Os resultados estão organizados em quatro partes: Caracterização do perfil socioeconômico das idosas participantes; Conhecimento das condições de vida e de saúde (física e mental); Identificação das redes de apoio formal e informal; e Sugestão de melhorias nos serviços da corporação.
Caracterização do perfil socioeconômico das idosas familiares de agentes da PMERJ
O perfil socioeconômico das participantes do estudo está descrito no Quadro 1. A idade variou de 62 a 88 anos, entre as que têm vínculo com policiais veteranos a média de idade foi 79 anos, as que possuem vínculos com policiais falecidos a média de idade foi 69,5 anos. E no grupo das vinculadas a policiais da ativa, observam-se as mais jovens: média de 68 anos de idade. Em relação à cor de pele, quatro se autodeclararam pardas, três brancas e duas pretas.

Quadro 1. Perfil socioeconômico das mulheres das familiares idosas dos agentes da PMERJ
Grande parte das entrevistadas tinha baixa escolaridade, variando desde analfabetas até nível superior completo. Podemos observar que pela baixa escolaridade formal e pouca formação profissional na trajetória de vida, a maioria delas tem como principal fonte de renda a pensão por morte deixada pelo policial, e a renda familiar das idosas parentes dos policiais da ativa e veteranos também é composta principalmente pelos proventos do militar. Dentre as nove idosas, somente três referiram possuir uma renda própria, proveniente de salário e aposentadoria.
O vínculo familiar e/ou institucional das idosas em relação ao policial militar de referência estão assim representados: quatro mães e duas esposas formam o grupo das dependentes; três são viúvas e pensionistas. No grupo das idosas em que os familiares militares eram falecidos, três eram esposas e uma mãe; três dessas mortes foram por homicídio e uma por causa natural.
O local de moradia das entrevistadas foi diverso e distribuído pelo estado do Rio de Janeiro, na cidade do Rio de Janeiro e em outros municípios (Zona Central – 1, Zona Norte – 2, Zona Oeste – 2, Baixada Fluminense – 2, e a região Leste Fluminense – 2).

Condições de vida e de saúde das idosas familiares de agentes da PMERJ

A maioria das entrevistadas avaliou a própria saúde física como insatisfatória pelos problemas de saúde que possuem. Por outro lado, algumas participantes enalteceram uma boa saúde mental, pelo fato de estarem lúcidas e considerarem isso como um fator positivo e importante em suas vidas.
Em seus relatos afirmaram ter doenças crônicas, transtornos mentais e/ou cognitivos, deficiência física ou mobilidade reduzida. Entre essas condições foram citadas: doença renal crônica, diabetes, hipertensão, cardiopatias, acidente vascular cerebral (AVC), problemas ortopédicos, gastrointestinais, distúrbios da tireoide, osteoporose, obesidade, depressão, síndrome do pânico e perda de memória. Os trechos a seguir retratam alguns desses relatos:
“Física razoável, que para minha idade, eu caminho bem, mental, acompanhamento psiquiátrico. Antes dele falecer, em 2019, eu já fazia há um ano este tratamento, pois eu desenvolvi síndrome de pânico (...) Tomo remédio para síndrome de pânico e tomo remédio para dormir” (Heloisa).
“A minha condição física é bem precária, a minha condição de saúde mental é 10, eu tenho a mente muito lúcida” (Marcela).
As idosas reportaram utilizar a rede de serviços de saúde da PMERJ, a rede particular, por meio de plano privado de saúde, e a rede de serviços públicos do Sistema Único de Saúde (SUS).
Sobre as vivências e experiências com a violência, destacaram a violência urbana na região onde residem e a violência letal que atingiu algum membro da família. Sobre a violência urbana, duas idosas precisaram sair de suas moradias às pressas, por ameaça ou risco de vida para seus familiares policiais militares. Os trechos a seguir são de duas idosas, uma mãe e uma esposa de policiais veteranos, que tiveram que mudar de residência devido à violência:
“Eu sinto mais segurança: se eu voltar para lá agora, ele não pode ir mais na minha casa” (Dandara).
“Aonde tem minha casa própria, a gente não tem muito apoio, virou, de 2005 para cá virou um comércio de entorpecentes (...). Então fica difícil de viver ali. E foi mais por este motivo que eu deixei minha casa própria há um ano para estar morando de aluguel. Eu saí da minha casa, justamente por este problema” (Lorena).
Dentre as nove familiares, cinco relataram perdas de familiares por causa violenta. Mesmo aquelas que foram selecionadas por seu vínculo com militar ativo ou veterano sinalizaram perda de algum familiar por violência, sendo a vítima militar ou não. Os trechos a seguir retrataram essas experiências:
“É uma cicatriz, um buraco que não fecha nunca. Você perde um pai, perde uma mãe, você sente, mas quando você perde um filho...” (Teresa).
“A violência maior no mundo foi a perda do meu filho” (Heloisa).
“Perdi meu marido assassinado na nossa loja por assaltante. Antes do assassinato eu não tinha problema de cabeça, mas com o ocorrido piorou tudo...” (Celina).
“Eu fiquei viúva com 28 anos. Minhas filhas eram pequenas” (Luana).
Além da violência letal, uma das idosas referiu, sutilmente, a questão da violência psicológica e da agressão, como mostra um trecho de seu depoimento:
“Foi uma Policial Militar dar uma palestra na minha escola que eu estudava, dizendo você tem direitos e não sabe. Falou sobre violência verbal, se vocês forem agredidas” (Edith).
Redes de apoio formal e informal das idosas familiares de agentes da PMERJ
Nas entrevistas, as idosas identificaram os apoios que, em sua percepção, compõem a rede de apoio formal e informal com que podem contar. A Figura 1 mostra os apoios mencionados por elas, listados por ordem decrescente de frequência dos relatos nas entrevistas.

Figura 1 - Mapeamento da Rede de Apoio das familiares idosas de agentes da PMERJ

Alguns relatos deixam transparecer que na rede de apoio formal estas idosas encontram apoio instrumental, e material, mas também apoio afetivo-emocional:
“Uma coisa que eu frequento e gosto muito é o projeto da Polícia (Zona Oeste). É um projeto de ginástica. É bom para caramba. Eu me divirto ali. É um grupo onde as pessoas têm várias idades, não só pessoas idosas. Tudo misturado. É um projeto para a população, mesmo para quem não tem vínculo com a Polícia Militar. Ali tem ginástica, hidroginástica. Tem os policiais com deficiência que também participam” (Teresa).
“O apoio que eu tenho, que é espiritual, é da Igreja e das pessoas. A gente não se deixa sozinho. Que é espiritual. Em orações mesmo” (Celina).
Entre os informais, o grupo ressaltou a família como o principal apoio nesta fase da vida. Também foram mencionados os vizinhos, amigos das instituições religiosas, amigos policiais militares e do trabalho. Algumas idosas afirmaram que são autossuficientes em relação ao apoio instrumental, pois possuem autonomia para a realização das atividades domésticas e cotidianas.
Sugestões para melhorar os serviços de atendimento da Corporação
Ao serem questionadas sobre o que precisam e o que sugerem para a melhorar os serviços da corporação, cinco idosas relataram a necessidade de melhorias no apoio fornecido pela corporação, como assistência domiciliar, plano de saúde particular, entre outros; quatro delas mencionaram as precárias condições de trabalho do policial militar (alto risco de vida, salário insatisfatório, desvalorização do trabalho do policial, insegurança, poucos direitos e benefícios). Consideram a rede de saúde da corporação como insuficiente, e apontaram a necessidade de melhorias nas condições de trabalho do policial militar. Por fim, uma delas reforçou a necessidade de melhor divulgação do projeto "Ginástica para Todos" (CEFD/ PMERJ), o qual valoriza como algo bastante benéfico.
Discussão
Este artigo buscou explorar as percepções de mulheres idosas familiares e dependentes de policiais militares do Rio de Janeiro sobre suas condições de saúde e a rede de apoio com a qual podem contar. Os resultados demonstram a complexa intersecção entre gênero, classe social, cor da pele e envelhecimento, em contexto de violência vivenciado pelas idosas familiares de profissionais da segurança pública. Neste grupo específico de idosas observam-se condições que as colocam em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica, como problemas de saúde, baixo nível de escolaridade, baixa renda, e dependência econômica. Isso, mais o acúmulo de sofrimento devido a perdas por eventos violentos, atuam como fatores que desafiam a noção de maior longevidade feminina aliada a uma melhor qualidade de vida.
A maioria das idosas do estudo relatou ter ensino fundamental incompleto e apenas uma tinha escolaridade superior incompleta. Tal panorama dialoga com o que Fonte19 descreve sobre os indicadores de renda e educação serem baixos entre a população idosa, em sua maioria composta por mulheres. Segundo dados do Censo 2022, o analfabetismo na população idosa tem reduzido percentualmente, ao longo dos três últimos censos demográficos. No entanto, no grupo das pessoas com 65 anos de idade ou mais, a taxa de analfabetos foi de 20,3% em 202220.
Tais condições socioeconômicas limitam as oportunidades de progressão social dessas mulheres, acumulam e consolidam vulnerabilidades e exclusão. A baixa escolaridade das idosas e a dependência financeira da pensão ou remuneração do familiar militar reafirmam desigualdades históricas de gênero no acesso à educação formal e na inserção das mulheres no mercado de trabalho. Aliado a isso, a menor renda referida pelas viúvas de praças demonstra que as iniquidades e a vulnerabilidade econômica na velhice podem ser ainda mais evidentes com a morte do provedor, muitas vezes por causa violenta.
Os significados atribuídos ao papel da mulher e ao envelhecimento na contemporaneidade mantêm conexão com a cultura forjada na sociabilidade capitalista, marcada por relações antagônicas entre as classes sociais. Compreender a história das sociedades humanas exige, portanto, o estudo da condição de exploração de classe e opressão de gênero. Nesse sentido, depreendemos a necessidade de refletir que as relações de gênero e geracionais, que determinam os significados acerca do papel da mulher e do envelhecimento, não podem ser dissociadas da dinâmica de classes sociais no marco do capitalismo, uma vez que estas processam e determinam os sentidos do envelhecer feminino21.
Os relatos de insatisfação com a saúde física devido às doenças crônicas autorreferidas (hipertensão e diabetes), e aos transtornos mentais (depressão e síndrome do pânico) podem ser reflexo das experiências acumuladas e dos parcos recursos para tratá-las. Destaque deve ser dado ao relato das participantes mais idosas, com vínculo de esposas/dependentes de militares veteranos, que referiram saúde mais comprometida, decerto por serem cuidadoras em tempo integral e terem menos tempo para o autocuidado. Esse papel de gênero, frequentemente esperado e assumido pelas mulheres e as sobrecarrega em todas as etapas da vida pode atuar como um determinante social da saúde, comprometendo a qualidade de vida das idosas. Essa perspectiva é debatida por Rocha et al.22 ao discorrer que as mudanças que ocorrem no envelhecimento, possuem um significado único influenciado por processos de construção social e por fatores discriminatórios e de exclusão relacionados ao gênero, etnia, condições sociais e econômicas, origem geográfica, local de residência, entre outros.
Nesse contexto, é fundamental compreender as desigualdades estruturais, as discriminações e os preconceitos que as mulheres enfrentam em diversas fases de suas vidas, sendo as consequências dessa opressão ainda mais graves na velhice, quando se deparam com condições de vida e saúde insatisfatórias e não condizentes com o seu importante e fundamental papel no desenvolvimento da sociedade19. Torna-se relevante dar visibilidade ao papel social da mulher idosa, uma vez que, historicamente, as mulheres são alvos de desigualdades econômicas, sociais e políticas21.
Portanto, no âmbito da violência social, vale destacar que a violência de gênero se reproduz de maneira insidiosa na sociedade, atingindo mulheres de diferentes faixas etárias, o que pode acentuar ainda mais as condições de saúde dessas mulheres idosas. Minayo23 destaca que as violências estão presentes nas relações sociais e constituem a vida cotidiana de maneira estrutural. Compreender esse fenômeno exige uma abordagem integrada que considere as desigualdades de gênero, a violência intrínseca a essas desigualdades e os impactos de longo prazo para as vítimas e suas famílias23.
Além disso, outro fator que surgiu fortemente nas expectativas e/ou de vivências pré-existentes, foi o risco de o policial, do qual é parente e/ou dependente, vir a morrer e/ou sofrer lesões no exercício da profissão. Tanto os policiais, como suas famílias, vivem o que Giddens24 chamou de "risco de alta consequência”, ou conforme Souza e Minayo25 denominaram o “risco como profissão”, pois exercem um trabalho de elevado risco, que se concretiza nas frequentes lesões e mortes por agressão, dentro e fora das corporações. E não sentem medo à toa: no Brasil, policiais militares em serviço, morreram duas vezes mais do que policiais civis, e do que policiais nos Estados Unidos 25. Essa vitimização é ainda maior quando estão em folga.
Tal situação pode contribuir para o aumento da violência que afeta não apenas os indivíduos diretamente envolvidos, mas também suas famílias que, por vezes, carecem de acesso aos equipamentos de assistência e apoio26 e adoecem física e emocionalmente após a perda do ente querido por morte violenta27, o que corrobora com os resultados deste estudo.
Os resultados deste estudo mostram que as redes de apoio, sejam elas formais ou informais, das familiares idosas de policiais militares se mostraram limitadas às necessidades básicas de saúde e ao apoio emocional. Junto a isso, seus relatos de medo devido ao risco inerente à profissão do familiar e as experiências pessoais com eventos traumáticos como a perda de filhos e companheiros por violência podem ser fatores que restringem ainda mais as já limitadas redes de apoio dessas idosas.
É essencial que haja rede de apoio às vítimas de violência, especialmente às famílias enlutadas, o que é ressaltado pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima28, que defende a necessidade de viabilizar o suporte social, emocional, jurídico e psicológico a essas pessoas. Essa entidade destaca ainda a possibilidade de desenvolvimento do luto patológico em familiares de vítimas de homicídio, mesmo depois de muito tempo da perda do familiar28. Outros autores 26,27,29 abordam a grande dificuldade que familiares de pessoas que morrem por violência têm (inclusive policiais) para que seu luto seja reconhecido e legitimado pela sociedade e o desamparo que sentem nessas situações. Esses autores ressaltam a necessidade de articular redes de apoio, de direitos e de proteção para aqueles que denominam “vítimas indiretas”. Também destacam a importância de formar os profissionais que atuam nestes serviços para lidarem com o luto destas pessoas.
As idosas familiares de policiais militares ressaltaram a importância dos serviços de saúde e de assistência social da PMERJ, assim como da rede privada, com poucas referências à rede de saúde do SUS, o que costuma ser comum em grupos com vínculos específicos, como o de policiais militares, refletindo a dependência institucional da corporação. Vale a pena destacar que, para 70% da população brasileira, a utilização dos serviços da rede SUS de forma exclusiva é uma realidade30, o que não se verifica entre as idosas participantes do presente estudo, que mesmo apresentando nível socioeconômico mais baixo possuem acesso aos serviços da corporação.
Apesar de serem os mais citados, os serviços de saúde da corporação receberam uma avaliação crítica das idosas, que os consideraram limitados. Dentre os relatos, surgiu a idealização de um plano de saúde privado, pago pela corporação. Essa percepção dialoga com o que discute Camarano31 sobre o fato de que, embora os marcos legais em prol das pessoas idosas tenham avanços significativos, as políticas sociais de inclusão não foram priorizadas em sua implementação e financiamento. Para a autora, como consequência, os custos de diversas medidas propostas acabam sendo divididos com a sociedade, o que pode ameaçar a solidariedade intergeracional.
Por outro lado, o Projeto de Ginástica foi bastante valorizado entre as idosas, como exemplo de apoio afetivo e instrumental. Seus relatos de satisfação com o apoio recebido nessas iniciativas não deixam dúvidas em relação à função exercida por esta ação na promoção da saúde e na socialização, tão importantes nesta fase da vida.
Os dados apresentados indicam a necessidade de valorização das redes de apoio social para as pessoas idosas, visando à promoção da sua saúde e à prevenção de situações de violência. Além disso, podem ser importantes fontes de apoio para lidar com situações desafiadoras como os eventos traumáticos e os riscos vivenciados por este grupo de familiares de agentes da segurança pública. Destaca-se a importância da ampliação das redes formal e informal de apoio que se complementam na realidade social destas idosas, numa perspectiva de proteção social, respeito, dignidade e qualidade de vida.
Neste sentido, estudo de Souza et al.8 sinaliza a importância de se fomentar o fortalecimento de redes formais e informais de apoio e proteção, no sentido de resgatar sentimentos de identidade comum, de pertencimento à comunidade e de coletividade. Ou seja, pensar, a formação de redes de solidariedade como um caminho para o resgate da cidadania e o enfrentamento da violência8, e do desamparo na velhice.
O conceito de rede de apoio formal e informal e seu uso como uma estratégia de trabalho para atuação de diversos profissionais nas áreas da Saúde, da Segurança Pública, da Assistência Social, da Educação, dentre outras, se faz essencial e deveria ser mais utilizado em estudos que se debrucem sobre o tema em diferentes instituições, políticas públicas, com profissionais da linha de frente e com grupos ou pessoas em situação de vulnerabilidade e risco26.
A presente pesquisa contou com algumas limitações que podem ser aprimoradas em futuros estudos. Por exemplo, não foram abordadas questões referentes aos benefícios previdenciários e/ou seguro de acidentes disponibilizados, e sobre direitos e benefícios institucionais aos familiares de policiais falecidos. Além disso, é possível que a amostra de conveniência e o número reduzido de pessoas entrevistadas tenha limitado o potencial de identificação da diversidade de situações existentes. No entanto, o estudo cumpre o papel de dar visibilidade às percepções desse grupo de mulheres idosas, pouco retratado na literatura científica nacional.
Declaração de Disponibilidade de Dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.

REFERÊNCIAS
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Carvalho, AG, Souza, ER, Poltronieri, BC, Ribeiro, AP. Redes de apoio social e condições de saúde de mulheres idosas familiares de policiais militares do Estado do Rio de Janeiro. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/abr). [Citado em 26/04/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/redes-de-apoio-social-e-condicoes-de-saude-de-mulheres-idosas-familiares-de-policiais-militares-do-estado-do-rio-de-janeiro/19993?id=19993&id=19993

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