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0219/2026 - TENDÊNCIA TEMPORAL DA COBERTURA VACINAL DA PENTAVALENTE EM MENORES DE 1 ANO NA FRONTEIRA DO BRASIL, 2014 A 2023
TEMPORAL TREND IN PENTAVALENT VACCINATION COVERAGE AMONG CHILDREN UNDER 1 YEAR OF AGE ALONG THE BRAZILIAN BORDER, 2014–2023

Autor:

• Daiana Rangel de Oliveira - Oliveira, DR - <daianaleas@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0004-0091-1231

Coautor(es):

• Liana Wernersbach Pinto - Pinto, L.W. - <lianawep@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1928-9265

• Luiz Antonio Bastos Camacho - Camacho, LAB - <luizantonio.camacho@fiocruz.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4656-1914



Resumo:

O objetivo deste artigo foi analisar a tendência da cobertura vacinal e da homogeneidade da pentavalente em crianças menores de 1 ano na fronteira do Brasil, no período de 2014 a 2023. Trata-se de um estudo ecológico de série temporal, com utilização de dados de sistemas oficiais de informação em saúde. Aplicou-se o modelo de regressão por pontos de inflexão para estimar as variações percentuais anuais (VPA) e intervalos de confiança de 95%. A evolução da cobertura vacinal da pentavalente nas unidades federadas com limite internacional revelou predomínio de tendências estacionárias e decrescentes. A faixa de fronteira apresentou tendência decrescente no período analisado (VPA = -2,2; IC95%: -3,5; -0,9). Das 17 sub-regiões fronteiriças, nove mantiveram tendência estacionária, com coberturas mais elevadas nos arcos central e sul. O arco norte apresentou predomínio de homogeneidade inferior a 45% entre as sub-regiões. Conclui-se que a cobertura da pentavalente variou conforme a região da fronteira, com tendência de diminuição em toda a faixa de fronteira, apresentando menores coberturas no arco norte, que indica maior vulnerabilidade para doenças imunopreveníveis nesta macrorregião.

Palavras-chave:

Vacinação; Cobertura Vacinal; Áreas de Fronteira; Estudos de Séries Temporais; Brasil.

Abstract:

The objective of this article was to analyze the trend in pentavalent vaccine coverage and homogeneity among children under one year of age in the Brazilian border region from 2014 to 2023. This is an ecological time-series study using data from official health information systems. The joinpoint regression model was applied to estimate annual percentage changes (APC) with 95% confidence intervals (95% CI). The evolution of pentavalent vaccine coverage in the federative units bordering the international border revealed a predominance of stationary and decreasing trends. The border region showed a decreasing trend during the analyzed period (APC = -2.2; 95% CI: -3.5; -0.9). Of the 17 border sub-regions, nine maintained a stationary trend, with higher coverage in the central and southern arcs. The northern arc showed a predominance of homogeneity below 45% among the sub-regions. It is concluded that pentavalent vaccine coverage varied according to the border region, with a decreasing trend throughout the border area, showing lower coverage in the northern arc, indicating greater vulnerability to vaccine-preventable diseases in this macro-region.

Keywords:

Vaccination; Vaccination Coverage; Border Areas; Time Series Studies; Brazil.

Conteúdo:

INTRODUÇÃO

A vacinação no primeiro ano de vida evita 2 a 3 milhões de mortes anuais no mundo, e mais 1,5 milhão poderiam ser evitadas se as campanhas de vacinação alcançassem um nível global 1 . No Brasil, a intensificação da vacinação a partir da década de 1990 levou à eliminação de doenças como a poliomielite e o tétano neonatal, além da redução significativa de doenças como difteria e coqueluche, conhecidas como importante causa de morbimortalidade infantil2.
Apesar dos progressos obtidos, há diversos desafios para manter altas coberturas no público infantil. O período de 2016 a 2022 registrou diminuição das coberturas vacinais no país, agravada pela pandemia de COVID-193–5. Embora haja recente reversão da queda, o aumento desigual pode criar bolsões de suscetíveis e desencadear surtos e epidemias 6–8.
O Calendário Nacional de Vacinação da Criança (2025) contempla 18 vacinas gratuitas pelo SUS contra mais de 19 doenças2. Dentre as vacinas contempladas na rede pública, a cobertura da vacina pentavalente, contra difteria, tétano, pertussis (DTP), hepatite B e Haemophilus influenzae tipo b, reduziu de 90,3% em 2024 para 87,9% em 2025, mantendo-se abaixo da cobertura vacinal preconizada (?95%)9. Esta vacina também está disponível nas formas pentavalente acelular (DTPa + Hib + VIP) e hexavalente (DTPa + Hib + HB + VIP), que são amplamente oferecidas no setor privado10.
Devido às características do esquema (3 doses) e aplicação (injetável), a pentavalente é considerada a vacina traçadora das demais coberturas vacinais do primeiro ano de vida e funciona como “marcador” de qualidade dos serviços de vacinação no país11,12. Internacionalmente, é o indicador utilizado para avaliação da melhoria da saúde dos povos da Região das Américas, por meio do aumento da cobertura da vacina em populações e comunidades de difícil acesso13.
Assegurar o acesso igualitário à vacinação é um grande desafio, especialmente no Brasil, com 5.570 municípios e áreas de difícil acesso. Este cenário de heterogeneidade e desafios pode ser observado ao longo da faixa de fronteira brasileira, onde vivem mais de 11 milhões de habitantes, que representa 16,7% do território brasileiro, e permite o acesso a dez países vizinhos: Argentina, Bolívia, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Paraguai, Peru, Suriname, Venezuela e Uruguai14. Nesse contexto, dados do Ministério da Saúde mostram que, em 2023, apenas 52,0% dos municípios de fronteira alcançaram cobertura vacinal adequada para a vacina pentavalente9.
Ao longo desse vasto território fronteiriço, observam-se intensos fluxos populacionais, na linha de fronteira, o que confere especificidades à organização e à oferta das ações de saúde. Isso acarreta uma série de problemas típicos, como: sobrecarga dos serviços decorrente da mobilidade transfronteiriça, a circulação ampliada de doenças transmissíveis e complexidade na implementação de políticas públicas em saúde 15,16.
Como os patógenos não se limitam às fronteiras nacionais, a circulação de pessoas em contextos de baixa cobertura vacinal pode favorecer a disseminação rápida de doenças imunopreveníveis17. Assim como foi evidenciado com o sarampo em 2018, quando houve reintrodução no Brasil devido ao intenso fluxo migratório na região de fronteira em Roraima e às baixas coberturas na região norte4.
Apesar da relevância programática e epidemiológica da faixa de fronteira, a literatura consultada não evidenciou estudos voltados à análise da tendência temporal da cobertura vacinal infantil nesse território. Embora existam investigações sobre situações específicas em municípios fronteiriços18,19, a dinâmica temporal da cobertura da pentavalente ao longo de toda a fronteira brasileira permanece pouco explorada. Nesse sentido, este artigo traz como contribuição original a análise da tendência temporal da cobertura da pentavalente em crianças menores de 1 ano e da homogeneidade da cobertura vacinal nos diferentes recortes territoriais da fronteira do Brasil, no período de 2014 a 2023.

MÉTODOS

Delineamento e área de estudo
Trata-se de um estudo ecológico de série temporal, cobrindo o período 2014 a 2023. O estudo é realizado em quatro unidades espaciais: as unidades de federação com fronteira internacional, os arcos, as sub-regiões, definidas como conjuntos de municípios de fronteira, e as cidades gêmeas.
A faixa de fronteira é definida como uma área de até 150 km de largura ao longo dos 15.719 km da fronteira terrestre do Brasil. Está organizada em três grandes arcos territoriais, norte, central e sul, uma regionalização utilizada em estudos sobre a fronteira brasileira, que não constitui uma divisão político-administrativa oficial, mas uma estratégia metodológica baseada em características geográficas, produtivas, socioeconômicas e nas dinâmicas territoriais. Esses arcos agrupam 17 sub-regiões, definidas como conjuntos de municípios da faixa de fronteira com características territoriais semelhantes, delimitadas a partir de critérios como localização geográfica, base econômica e condições sociais20,21. Cada município pertence exclusivamente a uma única sub-região. A sub-região XVI apresenta uma subdivisão em três segmentos, adotada para representar sua heterogeneidade territorial e suas diferentes dinâmicas socioeconômicas, sem implicar a criação de novas sub-regiões20. Ao todo, a faixa abrange 588 municípios distribuídos em 11 unidades da federação (Figura 1).


Fig.1

Do total de municípios na faixa de fronteira, 121 tocam a linha de fronteira e, entre estes, 33 são definidos como cidades gêmeas. São municípios situados na linha de fronteira, que apresentam grande potencial de integração econômica e cultural, podendo ou não ter uma conurbação, ou semi-conurbação com uma localidade do país vizinho22. Das 33 cidades gêmeas, 8 (24%) ficam no arco norte, 9 (27%) ficam no arco central e 16 (49%) ficam no arco sul.

Dados
Foram utilizados dois sistemas como fontes para extração de dados secundários de doses aplicadas: o Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI), para doses aplicadas de 2014 a 2022; e o Painel de Coberturas Vacinais do PNI, para doses aplicadas em 2023. Ambos os sistemas estão disponíveis online, respectivamente nos links http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/dhdat.exe?bd_pni/dpnibr.def e https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/paineis-de-vacinacao, e foram acessados em 20/06/2024. Para a extração dos dados no SI-PNI, os filtros utilizados foram: imunobiológicos (pentavalente e hexavalente), dose (3º), ano de vacinação e faixa etária (menor de 1 ano). Para a extração dos dados no painel de coberturas, além dos filtros anteriores, acrescentou-se o filtro correspondente à estratégia de vacinação (rotina e serviços privados). As variáveis coletadas dos sistemas foram: doses aplicadas por município de residência por ano. Na mesma data foram extraídos do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), os dados da população de nascidos vivos por município, utilizando-se os filtros, ano de nascimento e nascimento por residência da mãe.

Indicadores
A cobertura vacinal foi calculada mediante a razão do número de 3ª doses aplicadas da vacina pentavalente somada às 3ª doses das vacinas da hexavalente administradas em menores de 1 ano, divididas pelo número de nascidos vivos, residentes no mesmo local e período, multiplicados por 100. O indicador de homogeneidade de cobertura vacinal foi construído para cada ano de estudo, considerando o número de municípios que atingiu a meta de 95% ou mais de cobertura sobre o total de municípios de cada sub-região23. Uma região é considerada homogênea quando 70% ou mais de seus municípios atingem 95% de cobertura vacinal.
Os indicadores foram inicialmente calculados no nível municipal (município de residência) e, em seguida, agregados para apresentação e comparação segundo diferentes recortes geográficos da faixa de fronteira: total da faixa de fronteira, arcos (norte, central e sul), unidades federadas com fronteira internacional, sub-regiões e cidades gêmeas. Para a homogeneidade, considerou-se, em cada ano, a proporção de municípios que atingiram ?95% dentro de cada sub-região.
Foram elaborados mapas temáticos para representar a distribuição espacial da cobertura vacinal e da homogeneidade nas 17 sub-regiões da faixa de fronteira, apresentados em três períodos (2014–2016, 2017–2019 e 2020–2023) para facilitar a visualização da evolução temporal. A cobertura vacinal acumulada foi calculada pela razão entre o número de doses aplicadas e o número de nascidos vivos em cada período, multiplicada por 100, enquanto a homogeneidade acumulada correspondeu à média dos valores anuais de homogeneidade observados em cada período.

Análise temporal
Para análise temporal das coberturas vacinais, adotou-se o modelo de regressão por pontos de inflexão (joinpoint regression analysis) baseado no método de permutação de Monte Carlo24. O joinpoint é um método de análise de séries temporais que identifica pontos significativos de mudança ou inflexão de tendências, ajustando ao modelo mais simples que os dados da série permitem. Diferente de outros métodos estatísticos, como a série temporal interrompida, opera sem uma ideia preconcebida de onde podem surgir os pontos de ruptura na série analisada24,25. A técnica permite a identificação de múltiplos pontos de inflexão na tendência, o que, em uma série histórica de cobertura vacinal, torna a descrição da evolução temporal mais precisa do que outros métodos, como a análise de tendência linear26.
Anos de vacinação foram considerados variáveis independentes, enquanto as coberturas vacinais anuais foram tratadas como variáveis dependentes. A análise de tendência temporal foi conduzida para cada unidade geográfica de interesse: (I) total da faixa de fronteira; (II) arcos territoriais; (III) unidades federadas com fronteira internacional; (IV) sub-regiões; e (V) cidades gêmeas. Com o ajuste do modelo, foram obtidas medidas de Variação Percentual Anual (VPA) da cobertura vacinal por período, com Intervalo de Confiança de 95% (IC95%).Classificou-se a tendência temporal em três categorias: (I) crescente, quando o VPA e os limites do IC95% foram positivos; (II) decrescente, quando o VPA e os limites do IC95% foram negativos; e (III) estacionária, quando o IC95% incluiu zero.
Para fins de análise, foram imputados valores de cobertura vacinal no município de Quaraí, que apresentou entre os anos 2016 e 2019 valores zero ou próximos a zero, considerados inconsistentes e atribuídos a provável erro na transferência de dados 12. Para esses anos, foi imputado o valor de 45,4%, correspondente à média das coberturas observadas nos anos de 2015 e 2020. Realizado o mesmo procedimento para o município de Chuí referente ao ano de 2016, onde imputou-se o valor de 93,6%, correspondente a média de cobertura dos anos de 2015 e 2017. Na tabela com os resultados das análises por regressão joinpoint das sub-regiões, optou-se por não apresentar separadamente os dados referentes aos segmentos da sub-região XVI, uma vez que seus resultados se mostraram semelhantes aos observados no conjunto da sub-região à qual pertencem. Para a organização dos dados, foram utilizados o software R versão 4.4.1.27 e o programa Excel28. Para as análises, o aplicativo Join Point Regression Program, versão 5.2.0.0, de abril de 202424, e para produção de mapas, o Sistema de Informação Geográfica QGIS29.
Por se tratar de dados secundários agregados, sem possibilidade de identificação, e de domínio público, este tipo de estudo dispensa a avaliação de comitê de ética em pesquisa, conforme a Resolução n.º 510/16 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde.

RESULTADOS

Unidades federadas (UFs) situadas ao longo da fronteira e arcos
Dada a divisão territorial em arcos da faixa de fronteira, o arco norte apresentou uma tendência de decréscimo da cobertura vacinal da pentavalente em todo o período, de 2014 a 2023, com uma média de 70,5% de cobertura. Ressalta-se que, embora esse resultado não esteja apresentado na tabela, em 2023 a cobertura vacinal nesse arco atingiu apenas 66,4%, evidenciando uma queda ainda mais acentuada no final da série. Também no arco central houve tendência de decréscimo no período 2014-2021, com a cobertura média de 96,3%, que se estabilizou no período 2021-2023 (cobertura média de 85,8%). Em contraste, a cobertura média ficou estacionária em 90,2% no arco sul no período de 2014-2023. (Tabela 1).
A análise da tendência temporal da cobertura vacinal da pentavalente nas UFs com limite internacional revelou predomínio de tendências estacionárias e decrescentes, com alguns padrões de inflexão ao longo da série (Tabela 1). Em geral, estados do arco norte evidenciaram menores coberturas durante todo o período.
Observou-se que Roraima e Rondônia apresentaram tendência decrescente ao longo de todo o período. Roraima, que está no arco norte, apresentou a maior redução (VPA = -4,6; IC95%: -8,6; -0,6), com uma cobertura vacinal média de 71,5% no período. Em seguida, Rondônia (VPA=-2,9%; IC95%: -4,5; -1,3), no arco central, com uma cobertura vacinal média de 95,1%. Ao longo do período, o Amapá, no arco norte, apresentou tendências distintas, com uma acentuada diminuição no índice de cobertura, de 84,1% (2014 a 2016) para 53,6% (2020 a 2023). Padrão semelhante de inflexões também foi observado no Mato Grosso.
Ao considerar as UFs com tendência estacionária durante todo o período, é possível notar que Acre e Amazonas, pertencentes ao arco norte, estacionaram em coberturas abaixo de 80%.

Tab.1

Faixa de fronteira e sub-regiões
Na totalidade dos municípios na faixa de fronteira, a tendência foi de decréscimo médio de 2,2% ao ano na cobertura vacinal da pentavalente (Tabela 2). Os resultados da análise da tendência temporal das 17 sub-regiões de fronteira revelaram que 9 sub-regiões apresentaram uma tendência estacionária ao longo de todo o período de 2014 a 2023, destacando as sub-regiões do arco central e arco sul com maiores coberturas vacinais (Tabela 2).
Os mapas de cobertura vacinal e homogeneidade evidenciam um declínio progressivo de percentuais de cobertura em todo o período (Figura 2). O período de 2014 a 2016 apresentou os melhores índices de cobertura da pentavalente, com oito sub-regiões com cobertura superior a 95% e quatro sub-regiões com cobertura entre 85% e 95%. Além disso, houve uma predominância de homogeneidade menor que 45% nas sub-regiões do arco norte (Figura 2)
As sub-regiões situadas no arco norte apresentaram um padrão de baixa cobertura, coerente com o observado nas unidades federadas que compõem este arco (Tabela 1 e Tabela 2). Dentre as sub-regiões com tendência temporal decrescente, III Parima Alto Rio Negro e IV Alto Solimões, apresentaram os menores percentuais de cobertura no período (Tabela 2). Na Figura 2, observa-se que a cobertura de Parima Alto Rio Negro permaneceu abaixo de 70% entre 2020 e 2023, enquanto o IV Alto Solimões passou da faixa de 85% a 95% em 2014-2016 para valores inferiores a 70% em 2020-2023. A sub-região I Oiapoque-Tumucumaque, apresentou tendência crescente no último período, de 2020 a 2023, contudo com cobertura abaixo do preconizado (Tabela 2 e Figura 2).
As sub-regiões do arco central apresentaram predominância de cobertura acima de 90% ao longo do período analisado. Das sub-regiões com tendência estacionária, VIII Fronteira do Guaporé e IX Chapada dos Parecis, estacionaram em coberturas adequadas (?95%) em todo o período. Enquanto, XI Pantanal apresentou, no segundo período (2016-2023), tendência de estagnação em cobertura de 72,8%, abaixo do preconizado (Tabela 2). Em relação às sub-regiões que apresentaram tendência de declínio, a VII Madeira-Mamoré passou da faixa de cobertura acima de 95%, entre 2014 e 2019, para valores inferiores a 85% no período de 2020 a 2023. No período de 2014-2016, a cobertura de XIII Dourados alcançou mais de 95%, caindo para menos de 85% entre 2020 e 2023 (Figura 2).
As sub-regiões do arco sul apresentaram tendência estacionária em todo o período, com duas sub-regiões apresentando cobertura média acima de 90%. Destaca-se que, dentre todas as sub-regiões da faixa de fronteira, a XV Portal do Paraná, foi a única que alcançou a cobertura recomendada (?95%) no período de 2020 e 2023 (Tabela 2 e Figura 2).

Tab.2

Fig.2

Dentre as cidades gêmeas situadas no arco norte que apresentaram tendência estacionária em todo o período de 2014 a 2023, duas mantiveram média de cobertura muito abaixo do preconizado: Oiapoque-Amapá, com 47,5%, e Assis Brasil-Acre, com 57,6%. Destaca-se Pacaraima-Roraima, apresentou variações significativas ao longo do período analisado, com uma tendência crescente e cobertura superior a 95%, no último período, 2021-2023. Com exceção desta cidade, houve predominância de baixas coberturas nas cidades gêmeas deste arco, com Oiapoque e Assis Brasil apresentando os menores percentuais entre todas as cidades gêmeas da faixa de fronteira (Tabela 3).
Quatro cidades gêmeas do arco central alcançaram coberturas médias acima de 95% em todo o período analisado, enquanto Cáceres-Mato Grosso e Corumbá-Mato Grosso do Sul apresentaram tendência temporal estacionária em coberturas abaixo de 70%. Ao analisar as localidades com tendência decrescente neste arco, Paranhos-Mato Grosso do Sul apresentou um importante percentual de declínio no período, com VPA de -10,7% ao ano (IC95%:-20,1; -0,2%). Entretanto, a cobertura média do período se manteve acima de 125% (Tabela 3).
Quanto às cidades do arco sul, houve predominância de tendência estacionária. Do total das cidades neste arco, somente Jaguarão apresentou declínio de cobertura, e apenas no primeiro período, 2014-2020. No período como um todo, foram encontradas coberturas médias adequadas (?95%) em seis cidades gêmeas deste arco. Barra do Quaraí-Rio Grande do Sul apresentou estagnação durante todo o período, com uma cobertura de 72,1% (Tabela 3).

Tab.3

DISCUSSÃO
Este estudo analisou a tendência temporal da cobertura vacinal da pentavalente na faixa de fronteira brasileira, segundo a proposta de regionalização da faixa de fronteira do Ministério da Integração, em arcos, sub-regiões e municípios com relações transfronteiriças, evidenciando a heterogeneidade da vacinação infantil entre diferentes contextos geográficos e organizacionais 20,21.
Os resultados evidenciaram tendência de declínio da cobertura vacinal da pentavalente em toda a faixa de fronteira, com média inferior à meta preconizada (?95%) pelo PNI para menores de 1 ano 23. O arco norte concentrou as menores coberturas, enquanto a cobertura e a homogeneidade diminuíram progressivamente nas sub-regiões, restando apenas uma com cobertura ?95% no período final. Observou-se ainda importante heterogeneidade entre sub-regiões e cidades gêmeas, com Paranhos-Mato Grosso do Sul, e Oiapoque-Amapá apresentando, respectivamente, a maior e a menor cobertura.
A análise espacial dos mapas evidenciou redução progressiva da cobertura vacinal e da homogeneidade entre as sub-regiões da faixa de fronteira. Entre 2014 e 2016, predominavam sub-regiões com cobertura ?95%, especialmente nos arcos central e sul. Nos períodos seguintes, esses indicadores diminuíram, enquanto o arco norte manteve as menores coberturas e homogeneidade durante toda a série, com expansão das áreas de baixa cobertura para outras sub-regiões. Esse conjunto de achados evidencia que, embora o cenário desfavorável já estivesse presente no arco norte, houve expansão das áreas com baixas coberturas e menor homogeneidade para outras sub-regiões da faixa de fronteira ao longo do período estudado.
A ampliação das áreas com baixas coberturas vacinais e menor homogeneidade deve ser interpretada também à luz do contexto nacional do período. Além dos desafios inerentes aos territórios de fronteira, a série histórica coincidiu com a redução progressiva das coberturas vacinais no Brasil, especialmente a partir de 2016, marcada pelo desabastecimento da vacina pentavalente em 2019 e pelos impactos da pandemia de COVID-19 sobre os serviços de vacinação2,5,30. Em conjunto, esses fatores provavelmente contribuíram para o declínio progressivo da cobertura vacinal e da homogeneidade nas diferentes sub-regiões da faixa de fronteira.
Estudos de abrangência nacional sobre as coberturas vacinais da poliomielite e do sarampo em menores de 1 ano, em 2023, identificaram predominância de menores coberturas na região norte em comparação às demais regiões do país, sendo observado padrão semelhante na faixa de fronteira quando analisada segundo a divisão por arcos3,4. De forma consistente, o presente estudo evidenciou que o arco norte concentrou as menores coberturas vacinais e os menores indicadores de homogeneidade. Nos estudos citados, os fatores mais associados com esse cenário foram relacionados com desigualdades socioeconômicas e cobertura de Estratégia de Saúde da Família menor que 75%3,4.
A faixa de fronteira, particularmente os municípios que tocam a linha de fronteira, apresenta características peculiares, como elevada mobilidade populacional e presença de populações flutuantes, como garimpeiros e militares, o que impõe desafios adicionais à operacionalização das ações de vigilância e imunização voltadas à população fronteiriça 16,31. A esse contexto somam-se desigualdades socioeconômicas que também podem comprometer o desempenho da vacinação, como exemplificado por estudo realizado em Assis Brasil, em 2014, que identificou associação entre a não vacinação de crianças e fatores como, baixa escolaridade materna e residência em áreas rurais/ribeirinhas da Amazônia18. Esses achados são consistentes com os resultados do presente estudo, no qual Assis Brasil apresentou cobertura vacinal média inferior à meta preconizada durante toda a série histórica, sugerindo que as condições descritas na literatura podem continuar influenciando o desempenho da vacinação local.
Além das barreiras sociais e territoriais, fatores organizacionais também podem comprometer os programas de imunização. Em estudo de intervenção desenvolvido para qualificar as ações de imunização no Amapá, estado da faixa de fronteira que apresentou importante redução da cobertura vacinal ao longo da série histórica, foram descritos desafios como insuficiência de treinamento, alta rotatividade de profissionais, infraestrutura inadequada, escassez de recursos humanos e dificuldades no registro das doses aplicadas32,33. Avaliação nas 33 cidades gêmeas apontou desafios semelhantes em outros territórios da fronteira19. Dessa forma, os achados apresentados sugerem que as baixas coberturas vacinais na fronteira podem refletir a interação de fatores sociais, territoriais e organizacionais, cuja influência pode variar conforme as especificidades de cada contexto territorial.
As especificidades da faixa de fronteira devem ser consideradas na interpretação dos resultados, pois podem influenciar o desempenho das ações de imunização. Nos arcos norte e central, destacam-se a extensa floresta amazônica, a maior concentração de comunidades indígenas, a baixa densidade demográfica e as limitações de infraestrutura de comunicação e transporte34,35. Em contraste, o arco sul apresenta melhores indicadores socioeconômicos e maior disponibilidade de serviços de saúde21. Esse contexto é compatível com os resultados deste estudo, em que o arco sul apresentou maiores coberturas vacinais e predominância de tendências estacionárias, enquanto o arco norte concentrou menores coberturas e menor homogeneidade.
As cidades gêmeas ocupam posição estratégica na faixa de fronteira devido ao intenso fluxo populacional e à estreita interação com os países vizinhos, fatores que podem favorecer a formação de bolsões de suscetíveis 17. Nesse contexto, o Ministério da Saúde classificou oito cidades gêmeas como de risco muito alto para doenças imunopreveníveis14. Dentre elas, quatro apresentaram, no presente estudo, tendência estacionária ao longo da série histórica, com coberturas vacinais inferiores a 75%: Oiapoque-Amapá, Assis Brasil-Acre, Epitaciolândia-Acre e Barra do Quaraí-Rio Grande do Sul.
As baixas coberturas vacinais na faixa de fronteira são preocupantes pelo risco de reemergência de doenças já controladas, demandando estratégias específicas. Nesse contexto, o Ministério da Saúde lançou, em maio de 2022, o plano de ação “Estratégia de Vacinação nas Fronteiras – Agenda 2022”. A população-alvo incluiu residentes e estrangeiros de diferentes faixas etárias das cidades gêmeas e localidades vizinhas. As intervenções foram implementadas entre maio e dezembro de 2022, iniciando-se pela região norte, considerada de maior risco, seguida das regiões centro-oeste e sul14.
Embora não tenham alcançado coberturas adequadas (?95%) em todas as localidades, as ações do plano aumentaram a cobertura vacinal de crianças menores de um ano nas 33 cidades gêmeas, sugerindo que estratégias territorializadas, com participação de atores locais, são relevantes 7,19. Considera-se que são necessárias ações integradas entre os entes federativos, com investimentos na qualificação dos profissionais de saúde, e no financiamento dos serviços, considerando o acesso transfronteiriço e a sobrecarga assistencial 15,19.
Ressalta-se também a importância de parcerias com países vizinhos, como o projeto Fronteiras Saudáveis e Seguras do Mercosul, realizado em 2023 na tríplice fronteira de Foz do Iguaçu, envolvendo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai 36. Embora restrita a uma região específica da fronteira, essa iniciativa ilustra o potencial da cooperação internacional para fortalecer as ações de imunização. Da mesma forma, os resultados nas 33 cidades gêmeas contempladas pelo Plano de Ação nas Fronteiras sugerem que iniciativas coordenadas entre diferentes níveis de governo podem contribuir para ampliar as coberturas vacinais19. No entanto, esses resultados não podem ser extrapolados para toda a faixa de fronteira nem avaliados no presente estudo, cujo período de análise se encerrou em 2023.
Dentre as limitações do estudo, destaca-se o uso de dados secundários, sujeitos a inconsistências e incompletudes decorrentes de falhas nos sistemas de informação. Coberturas vacinais atípicas (muito baixas ou elevadas) podem resultar de duplicidade de registros, subestimação da população, erros na transferência dos dados, ou à falta de registro individual do vacinado por local de residência. Ressalta-se que essas limitações não são exclusivas dos municípios de fronteira 3,4.
Outra limitação refere-se à mudança na fonte oficial de dados em 2023, quando as informações passaram a ser provenientes de registros individualizados da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). Entretanto, o método de cálculo da cobertura vacinal foi mantido, preservando a comparabilidade temporal da série histórica.
Adicionalmente, a indisponibilidade dos dados de acesso público, impossibilitou a inclusão das coberturas vacinais dos países limítrofes o que poderia auxiliar no entendimento da dinâmica de interações transfronteiriças.
Apesar das limitações, os resultados deste estudo permitem identificar a tendência temporal da cobertura vacinal por divisão territorial da fronteira brasileira, um panorama pouco explorado na literatura científica. As informações fornecidas podem ser usadas para apoiar ações estratégicas de imunização e vigilância pelos gestores, levando em conta o arranjo federativo singular da fronteira.
Conclui-se que, embora se observe um padrão de heterogeneidade ao longo da fronteira brasileira, o arco norte concentrou as menores coberturas vacinais, indicando maior vulnerabilidade dessa macrorregião para doenças imunopreveníveis. O aprofundamento desses achados poderá ser favorecido por pesquisas que incorporem outros modelos analíticos e investiguem fatores contextuais, socioeconômicos, organizacionais e as interações com cidades estrangeiras vizinhas, de modo a ampliar a compreensão dos determinantes das desigualdades vacinais em territórios de fronteira.

Declaração de Disponibilidade de Dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.


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Oliveira, DR, Pinto, L.W., Camacho, LAB. TENDÊNCIA TEMPORAL DA COBERTURA VACINAL DA PENTAVALENTE EM MENORES DE 1 ANO NA FRONTEIRA DO BRASIL, 2014 A 2023. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/ago). [Citado em 24/08/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/tendencia-temporal-da-cobertura-vacinal-da-pentavalente-em-menores-de-1-ano-na-fronteira-do-brasil-2014-a-2023/20117?id=20117

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