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Artigos

0167/2026 - Variação da prevalência de sintomas depressivos pós-parto no Brasil: Pesquisa Nacional de Saúde 2013 e 2019
Variation in the prevalence of postpartum depressive symptoms in Brazil: National Health Survey 2013 and 2019

Autor:

• Carolina Teixeira Silva - Silva, CT - <Carolt.1@yahoo.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-8195-8236

Coautor(es):

• Claudia Reis Miliauskas - Miliauskas , CR - <claudiarmili@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9077-5170

• Claudia de Souza Lopes - Lopes, CS - <lopes@ims.uerj.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0401-689X



Resumo:

Objetivo: Estimar a variação da prevalência dos sintomas de depressão pós-parto (SDPP) no Brasil e examinar como essa prevalência pode ter mudado em diferentes grupos sociodemográficos e macrorregiões do país, entre os anos de 2013 e 2019. Métodos: O estudo utilizou dados da Pesquisa Nacional de Saúde 2013 e 2019. Foram avaliados os SDPP a partir do Patient Health Questionnaire-9 ? 10, em mulheres adultas que tiveram filho até 18 meses antes da entrevista. A variação da prevalência entre os inquéritos foi expressa em variação absoluta e percentual da razão de prevalência. Resultados: Houve mudança no perfil das mulheres que tiveram filho para faixa etária e nível de instrução, onde foi observado que as mulheres estão tendo filhos mais tarde (35 anos ou mais) e com maior escolaridade (ensino médio completo ou mais). Observou-se aumento da prevalência de SDPP para todas as categorias estudadas, com um aumento relativo de 43,3% (IC95% 6,4;93,1) no país, de 9,9% (IC95% 7,8;12,5) em 2013, para 14,2% (IC95% 11,8;16,9) em 2019. Destaca-se que a maior variação foi para as mulheres de 35 anos ou mais (148,4% IC95% 21,8;406,5). Além disso, foi encontrada alta variação para o menor nível de instrução considerado - até ensino fundamental incompleto (103,9% IC95% 16,5;256,7). Conclusão: Supõe-se que esses aumentos decorram da crise econômica ocorrida no país no período e de mudanças nas estruturas familiares brasileiras. Vale ressaltar a necessidade de investimento público na saúde mental materna no período pós-parto.

Palavras-chave:

depressão pós-parto; Questionário de Saúde do Paciente; Inquérito Nacional de Saúde; Brasil

Abstract:

Objective: Estimate the variation in the prevalence of postpartum depression symptoms (PDS) in Brazil and to examine how this prevalence may have changed across different sociodemographic groups and macro-regions, between 2013 and 2019. Methods: The study used data from National Health Survey, 2013 and 2019. PDS were assessed using a Patient Health Questionnaire-9 score ≥ 10 in adult women who had a child within 18 months prior to the interview. The variation in prevalence between surveys was expressed as absolute change and as the prevalence ratio percentage. Results: There was a shift in the profile of women who had given birth with respect to age group and educational level, indicating that women are having children at older ages (35 years or older) and with higher levels of education (completion of secondary education or more). An increase in the prevalence of postpartum depression symptoms (PPDS) was observed across all categories studied, with a relative increase of 43.3% (95% CI: 6.4;93.1) nationwide, rising from 9.9% (95% CI: 7.8;12.5) in 2013 to 14.2% (95% CI: 11.8;16.9) in 2019. The largest variation was observed among women aged 35 years or older (148.4% - 95%CI: 21.8;406.5). Additionally, a substantial increase was found among those with the lowest level of education—up to incomplete primary education (103.9% - 95%CI: 16.5;256.7). Conclusion: These increases are presumed to be associated with the economic crisis experienced in the country during the period, as well as with changes in Brazilian family structures. The findings highlight the need for public investment in maternal mental health during the postpartum period.

Keywords:

postpartum depression; Patient Health Questionnaire; Health Surveys; Brazil

Conteúdo:

Introdução
Segundo a Organização Panamerica de Saúde (OPAS)1, a depressão é a principal causa de incapacidade no mundo, afetando mais de 300 milhões de pessoas em todas as faixas etárias. Dados do Estudo de Carga Global de Doença indicam que a depressão está entre as três principais causas de anos vividos com incapacidade, especialmente entre as mulheres2.
No Brasil, estudo que avaliou a tendência da prevalência de sintomas depressivos na população geral, entre 2013 e 2019, mostrou um aumento de 7,9% para 10,8%, sendo esse aumento maior entre as mulheres3. Em consonância, uma revisão sistemática e meta-análise conduzida em 2014 com adultos brasileiros, concluiu que a prevalência de depressão é até duas vezes maior em mulheres do que em homens4.
A depressão pós-parto (DPP) é um transtorno frequente no período pós-natal e pode ter uma variedade de sintomas e consequências. Dentre os principais sintomas estão tristeza profunda, perda de interesse nas atividades habituais, distúrbios do sono e nos casos mais graves pode apresentar risco de maus-tratos ao bebê e/ou ideação suicida. Além disso, esse quadro pode comprometer o vínculo mãe-bebê e afetar o desenvolvimento social, afetivo e cognitivo da criança5,6.
Considerada um problema de saúde pública devido sua elevada prevalência. A DPP geralmente se inicia um mês após o nascimento do bebê podendo durar até um ano ou mais após o parto6–9. Evidências recentes indicam que sua prevalência permanece relativamente estável ao longo do período pós-parto, com estimativas em torno de 16% no primeiro ano e 15% entre 13 e 24 meses após o parto 9.
A literatura evidencia que a DPP resulta de múltiplos fatores, sendo eles psicológicos, sociais e obstétricos10. Algumas variáveis como idade materna, nível de instrução, condições socioeconômicas, apoio social e histórico anterior de depressão tem sido relacionadas a sua ocorrência11–13. Além disso, a prevalência de DPP pode variar entre regiões, mostrando disparidades no acesso aos serviços de saúde, condições de vida e contextos socioculturais13,14. No Brasil, país com grande desigualdade, essas diferenças tornam-se ainda mais relevantes e reforçam a importância de análises estratificadas.
No Brasil, os dados mais recentes de âmbito nacional que se tem são da primeira edição da pesquisa “Nascer no Brasil” realizada entre 2011/2012, pesquisa de base hospitalar, onde foi encontrada prevalência de sintomas depressivos pós-parto de 26,3% considerando o período de 6 a 18 meses pós-parto6. Outra pesquisa recente que avaliou a saúde reprodutiva da mulher e que ainda não teve seus dados totalmente explorados é a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), pesquisa domiciliar, sendo a primeira pesquisa nacional voltada exclusivamente à avaliação da situação de saúde da população brasileira15. Nas duas edições da PNS já realizadas (2013 e 2019), foram avaliados sintomas depressivos e atendimento pré-natal das mulheres que tiveram filho(a) o que possibilitou a investigação da prevalência de sintomas depressivos pós-parto.
Apesar da relevância do tema, ainda há escassez de estudos de base populacional que avaliem a variação temporal dos sintomas depressivos pós-parto no Brasil. Sendo assim, o presente estudo teve como objetivo avaliar a variação da prevalência de sintomas depressivos pós-parto no país, e examinar como essa prevalência se distribui segundo características sociodemográficas e macrorregiões, entre 2013 e 2019.

Métodos
Desenho do estudo e amostra
O presente estudo utilizou dados referentes as duas edições da PNS, 2013 e 2019. Ambas as pesquisas são inquéritos domiciliares de base populacional, e foram realizadas pelo Ministério da Saúde (MS) em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O principal objetivo da PNS é fornecer dados sobre o estado de saúde e estilo de vida da população brasileira, incluindo informações sobre o acesso e utilização de serviços, continuidade dos cuidados, financiamento da assistência de saúde e ações preventivas15,16.
As duas edições da PNS (2013 e 2019) utilizaram amostragem conglomerada em três estágios. Como a PNS faz parte do Sistema Integrado de Pesquisas Domiciliares (SIPD), o primeiro estágio de amostragem foi selecionado a partir da Amostra Mestra. No segundo estágio os domicílios foram selecionados por amostragem aleatória simples dentro de cada uma das unidades primárias. Por fim, no terceiro estágio, também utilizando amostragem aleatória simples, foi selecionado um morador (de 18 anos ou mais na edição de 2013 e de 15 anos ou mais na edição de 2019) para responder o questionário específico. Além disso, foram definidos fatores de expansão para as unidades primárias de amostragem, para os domicílios e de todos os seus moradores e do morador selecionado15–17.
A primeira edição da pesquisa (2013) teve o período de coleta entre agosto e novembro de 2013, já a segunda edição (2019) foi a campo em agosto de 2019 e a coleta foi finalizada em março de 2020. De acordo com o IBGE, foram selecionados 81.357 domicílios em 2013 e 108.525 em 2019. A taxa de perda calculada para o questionário comum a todos os moradores foi de 20,8% e 13,2%, em 2013 e 2019, ficando abaixo do planejado, 23% em 2013 e 20% em 2019. Considerando o questionário específico dos moradores selecionados as taxas de perda foram um pouco maiores, de 25,9% e 16,2%, em 2013 e 201915,16.
Para possibilitar comparações entre os resultados das duas edições da PNS, o IBGE adotou procedimentos específicos. Inicialmente, no que concerne à população alvo, realizou-se a reponderação dos pesos utilizados na expansão da amostra da PNS 2013. O IBGE calibra as estimativas provenientes das pesquisas domiciliares por amostragem com base nos dados das Projeções da População do Brasil e das Unidades da Federação, elaborados e divulgados pelo próprio instituto. Desse modo, para a expansão da amostra da PNS, empregam-se estimadores de razão, cuja variável independente é o total populacional dos níveis geográficos correspondentes aos domínios de estimação da pesquisa. O IBGE publicou, em 2018, a revisão da Projeção da População das Unidades da Federação, por sexo e faixa etária, para o período de 2010 a 2060, utilizando o Método das Componentes Demográficas. Essa revisão foi utilizada no cálculo dos pesos amostrais da PNS 2019. Com o objetivo de assegurar a comparabilidade entre os resultados das duas edições da pesquisa, foram recalculados os fatores de expansão da PNS 201316, os quais foram utilizados na presente pesquisa.

Critério de elegibilidade
Na literatura não há consenso sobre por quanto tempo após o parto uma depressão pode ser classificada como de início nesse contexto18,19, alguns autores ampliam a definição de depressão pós-parto para até dois anos ou mais após o parto6,8,20. Além disso, uma revisão sistemática e meta-análise realizada com estudos de todo o mundo concluiu que a prevalência de mulheres que vivenciam a depressão pós-parto no primeiro ano é semelhante à do segundo ano pós-parto9. E, como no Brasil, os dados mais recentes de âmbito nacional que se tem são da primeira edição da pesquisa “Nascer no Brasil” que considerou o período de 6 a 18 meses pós-parto6, o presente estudo também optou por avaliar o período pós-parto ampliado.
Ambas as edições da PNS investigaram o atendimento pré-natal a partir do módulo S sendo que em 2013 foram selecionadas as mulheres de 18 anos ou mais que haviam tido filho(a) até 18 meses antes da pesquisa, enquanto em 2019 foram investigadas mulheres de 15 anos ou mais cujo parto havia ocorrido até 2 anos antes da pesquisa. Para efeito de comparabilidade o presente estudo utilizou como critério de elegibilidade mulheres de 18 anos ou mais que tiveram filho(a) até 18 meses antes da entrevista.

Descrição das variáveis
O arquivo de dicionário e microdados foram obtidos via endereço eletrônico do IBGE. Após analisar o questionário foram identificadas as variáveis de interesse para a pesquisa e feito o tratamento dos dados.
As regiões geográficas foram: Brasil e suas macrorregiões (“Norte”, “Nordeste”, “Centro-Oeste”, “Sudeste” e “Sul”) e situação do domicílio (“urbano”, “rural”), e as características sociodemográficas foram: faixa etária (“18 a 24 anos”, “25 a 34 anos”, e “35 anos ou mais”), cor ou raça (“branca”, “preta ou parda”), nível de instrução (“sem instrução e fundamental incompleto”, “fundamental completo e médio incompleto”, “médio completo ou mais”), situação conjugal (“solteiro, divorciado ou viúvo não coabitando” e “casado ou em coabitação”). Além disso, foi avaliada a paridade, ou seja, o número de partos anteriores da mulher, categorizado como “1 parto”, “2 partos” ou “3 partos ou mais”.
Análises preliminares da variável cor ou raça desagregadas entre “branca”, “preta” e “parda” indicaram instabilidade nos modelos estatísticos e comprometeram a precisão das estimativas. Dessa forma, optamos pela agregação das categorias “preta” e “parda”, estratégia que é comumente adotada na literatura brasileira21,22.

Avaliação de sintomas depressivos pós-parto
Wang et al. (2021)23 realizaram uma revisão sistemática e meta-análise investigando o uso do instrumento Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9), para o rastreio da dep
ressão perinatal. A depressão perinatal é um problema prevalente e incapacitante durante a gravidez e o período pós-parto. Dentre os principais achados do estudo estão que o PHQ-9 possui boa sensibilidade e boa especificidade para o rastreio de depressão perinatal, e que possui desempenho comparável ao Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS) que, até o momento, é a escala de depressão perinatal mais recomendada e utilizada. O estudo concluiu que o PHQ-9 é uma opção viável para rastreio de depressão na gestação e no período pós-parto.
Os sintomas depressivos pós-parto foram avaliados através do PHQ-9, instrumento inserido no módulo N das duas edições da PNS. Este instrumento consiste em um questionário com 9 itens, onde cada uma das questões refere-se a um sintoma relacionado à depressão, de acordo com os critérios de diagnóstico estabelecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Quarta Edição (DSM-IV). Todas as questões possuem quatro opções de resposta, sendo elas: “nenhum dia”, “menos da metade dos dias, “mais da metade dos dias” e “quase todos os dias”, correspondendo a pontuação 0, 1, 2 e 3, respectivamente. Sendo assim, a pontuação que se pode atingir ao responder o questionário é 0, a mínima e 27, a máxima24.
O ponto de corte adotado neste estudo será o mesmo que o utilizado por Wang et al.23, que identificaram desempenho comparável entre o EPDS e o PHQ-9, e no qual considerou-se como indicativo de sintomas depressivos clinicamente relevantes, uma pontuação do PHQ-9 igual ou superior a 10.

Análise dos dados
As estimativas para a PNS 2013 e 2019 foram calculadas baseadas na distribuição t, assim como seus intervalos de confiança de 95% (IC 95%). Primeiramente, os dados das pesquisas foram agrupados transformando os dois conjuntos de dados em apenas um, e foi incluída uma variável indicadora com o ano da edição da pesquisa (2013 ou 2019) para identificar a iteração.
As variações entre os inquéritos de 2013 e 2019 foram expressas em diferenças absoluta e variação percentual da razão de prevalência, de forma a mensurar a grandeza da variação. Ambas foram estimadas utilizando modelos lineares generalizados: a variação absoluta utilizando um modelo Gaussiano e o percentual da razão de prevalência utilizou um modelo de Poisson com variância robusta.
A amostragem complexa da pesquisa e seus pesos populacionais foram considerados em todas as estimativas, sendo utilizada uma calibração por pós-calibração.
A prevalência em cada categoria de agrupamento em 2013 foi definida como linha de base, fixando o intercepto em zero. Para estimar a mudança de prevalência de 2013 para 2019, um termo de interação entre a variável de agrupamento e a variável indicadora foi utilizado. Esse termo permitiu estimar, nos respectivos modelos, a diferença absoluta de prevalência e o logaritmo da razão de prevalência entre os anos.
No modelo de Poisson, o coeficiente do termo de interação representa o logaritmo da razão de prevalência entre 2019 e 2013 para cada categoria analisada. A variação percentual da razão de prevalência foi obtida a partir do exponencial do coeficiente de interação, subtraindo-se 1 e multiplicando por 100, indicando o aumento ou redução percentual da prevalência no período.
Os dados foram manipulados por meio de dois softwares estatísticos SAS e R, através de descripts e surveys, respectivamente, que consideram efeitos da amostragem complexa para o processo de análise.

Aspectos Éticos
O presente estudo foi realizado a partir de dados secundários da PNS 2013 e PNS 2019 que foram aprovadas pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) do Conselho Nacional de Saúde - CNS, em junho de 2013 e Portaria nº. 328.159, e em agosto de 2019, Portaria nº. 3.529.376, respectivamente. Todos os participantes foram avisados sobre o inquérito e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido no momento da entrevista15,16.

Resultados
Os resultados mostram que houve pouca mudança no perfil das mulheres que pariram entre os seis anos avaliados, exceto para faixa etária e nível de instrução. Para faixa etária encontramos redução na faixa mais jovem (18-24 anos), de 37,3% (IC95% 33,8;40,9) para 28,6% (IC95% 25,3/32,2), e aumento na maior faixa etária (35 anos ou mais), de 15,7% (IC95% 13,3-18,4) para 23,5% (IC95% 20,3/27,0). Em relação ao nível de instrução, observamos aumento para o maior nível considerado (médio completo ou mais), de 52,8% (IC95% 49,0;56,5) para 63,7% (IC95% 60,1;67,1). A tabela 1 apresenta as informações descritas.
Incluir tabela 1
A prevalência de sintomas depressivos pós-parto de acordo com características sociodemográficas e número de partos prévios são apresentados na tabela 2, assim como as variações absolutas e o percentual da razão de prevalência entre os anos de 2013 e 2019. Observou-se aumento da prevalência de sintomas depressivos pós-parto para todas as variáveis e categorias estudadas, com um aumento relativo de 43,3% (IC95% 6,4;93,1) no Brasil, passando de 9,9% (IC95% 7,8;12,5), em 2013, para 14,2% (IC95% 11,8;16,9), em 2019.
Incluir tabela 2
A prevalência de sintomas de DPP também foi avaliada em mais dois subgrupos definidos pelo tempo decorrido desde o parto, sendo o primeiro de 0 a 12 meses e o segundo de 13 a 18 meses, esses resultados são apresentados na tabela 3. No primeiro subgrupo (0 a 12 meses) foi observado aumento de 9,7% (IC95% 7,3;12,8), em 2013, para 13,8% (IC95% 10,9;17,3), em 2019. De forma semelhante, no período de 13 a 18 meses pós-parto, a prevalência aumentou de 10,3% (IC95% 6,8;15,4) para 15,1% (IC95% 11,4;19,7), de 2013 para 2019.
Incluir tabela 3
Com relação às grandes regiões do Brasil avaliadas, foi encontrado o maior percentual de razão de prevalência para a região Sudeste, 107,6% (IC95% 7,3;301,5), e a menor variação para a região Norte, 1,1% (IC95% -46,1;90,0). Ao avaliar as faixas etárias selecionadas, destaca-se que a maior variação foi para as mulheres de 35 anos ou mais (148,4% - IC95% 21,8;406,5). Além disso, foi encontrada variação considerável para o menor nível de instrução avaliado – até fundamental incompleto (103,9% - IC95% 16,5;256,7).
Ao considerar a cor/raça das mulheres, não houve grande variação em nenhuma das categorias (branco, preto ou parda) avaliadas e foi encontrado resultado similar ao avaliar a variável situação conjugal (não coabitando, casado ou em coabitação).
Com relação à paridade, temos um aumento de 74,3% (IC95% 4,0;192,3) na prevalência de sintomas depressivos pós-parto entre 2013 (8,8% - IC95% 5,9;12,9) e 2019 (15,3% - IC95% 11,1;20,7) para as mulheres com 2 partos, enquanto o aumento para mulheres primíparas sofreu uma variação de 7,5% (IC95% -36,0;80,6), variando de 9,6% (IC95% 6,4;14,1) para 10,3% (IC95% 7,2;14,5). Para as mulheres com 3 partos ou mais o aumento da prevalência também foi grande, variando de 12,0% (IC95% 7,8;18,0) para 18,6% (IC95% 14,4;23,7).
Vale ressaltar que devido ao tamanho amostral para a categoria rural da variável área de moradia, não foi possível seguir com essa análise para o cálculo das prevalências de sintomas de DPP e suas variações.

Discussão
O presente estudo, é o primeiro a comparar o panorama geral dos sintomas depressivos pós-parto no Brasil em dois períodos distintos. As estimativas feitas, a partir do PHQ-9, encontraram aumento relativo de 43,3% da prevalência de sintomas depressivos pós-parto entre 2013 e 2019, de 9,9% para 14,2%, respectivamente. Além disso, esse aumento apresentou maior variação entre as mulheres que residem na região Sudeste do país, que são mais velhas (35 anos ou mais), que possuem nível de instrução mais baixo (até fundamental incompleto) e entre as mulheres multíparas (2 ou mais partos).
Com relação ao perfil das mulheres que tiveram filhos no Brasil entre 2013 e 2019, os achados do presente estudo corroboram os achados mundiais e brasileiros, onde observa-se que as mulheres estão tendo filhos mais tarde (35 anos ou mais) e com maior escolaridade, esse fenômeno tem sido amplamente associado a crescente inserção das mulheres no mercado de trabalho25–27. Ademais, houve uma redução de mulheres que tiveram filhos entre 18 e 24 anos, de 2013 para 2019 no Brasil, o que pode refletir melhorias no acesso à informação e aos serviços de saúde sexual e reprodutiva, possivelmente relacionadas à ampliação da cobertura da Atenção Primária à Saúde e à expansão da Estratégia de Saúde da Família, pois aproxima os jovens adultos dos profissionais de saúde25,28,29.
Em 2022, foi realizado um estudo de tendência de depressão no Brasil, que encontrou aumento na prevalência de depressão de 39,8%, entre 2013 e 2019, para as mulheres de 18 anos ou mais3, um aumento similar ao que foi encontrado (43,3%) para a prevalência de depressão pós-parto no presente estudo. Esses achados condizem com o encontrado por um estudo de tendência de depressão e depressão pós-parto realizado na Dinamarca entre os anos de 2000 e 202230, que concluiu que a prevalência de depressão e depressão pós-parto seguem tendências temporais similares.
Hellyer e colaboradores (2025) através de uma revisão sistemática e meta-análise concluíram que a prevalência de depressão no segundo ano pós-parto é semelhante ao do primeiro ano e reforçaram a importância de ampliar a avaliação e a assistência em saúde mental perinatal para até dois anos pós-parto9. Corroborando com tal achado, o presente estudo encontrou que a prevalência de sintomas de DPP era semelhante entre o primeiro ano e o período de 13 a 18 meses pós-parto, além de apresentar aumento relativo similar entre 2013 e 2019, correspondendo a 42,5% no primeiro ano e 46,0% nas mulheres de 13 a 18 meses pós-parto.
Uma revisão sistemática sobre os determinantes mais comuns que afetam a saúde mental perinatal em países de baixo e médio rendimento, observou que o risco econômico está amplamente associado ao aumento de risco de transtornos mentais comuns perinatais31. A crise econômica iniciada em 2014 no Brasil, ano entre as duas edições da PNS, afetou todas as regiões do país, tendo maior impacto no mercado de trabalho da região Sudeste32. Períodos de crise, no geral, são sentidos mais intensamente por grupos mais vulneráveis, particularmente, no Brasil, onde não ocorreram medidas efetivas de proteção social para o período. Dessa forma, a crise econômica vivenciada, nesse período, pode ter contribuído para o aumento da prevalência de depressão pós-parto entre as mulheres com nível de instrução mais baixo (103,9%), e o aumento expressivo na região Sudeste (107,6%).
Dentre os principais resultados desse estudo, destaca-se o grande aumento da prevalência de sintomas de DPP entre as mulheres da maior faixa etária (35 anos ou mais), 148,4%, enquanto para as demais faixas etárias avaliadas, esse aumento foi de cerca de 30%. De acordo com os censos demográficos de 2010 e 2022, ocorreu mudança na composição familiar brasileira nesse período; antes 38,7% das mulheres eram responsáveis pelos domicílios e, em 2022, esse percentual subiu para 49,1%, principalmente na faixa de 40 a 59 anos, o que acarretou um aumento da responsabilidade dessas mulheres33. Atrelado à crise econômica, que atingiu o período do presente estudo, e ao aumento das mulheres responsáveis pelos lares, ocorre, também no Brasil e no mundo, o aumento de mulheres da chamada “geração sanduíche” - aquela responsável por cuidados de filhos e pais simultaneamente34. Tal fenômeno está relacionado ao aumento da expectativa de vida e ao adiamento da maternidade, além de atingir principalmente mulheres na faixa de 35 a 49 anos35. Provavelmente, tais mudanças podem ter contribuído de forma negativa na saúde mental de mulheres de 35 anos ou mais recém mães, o que fez com que tivessem um aumento maior na prevalência de depressão pós-parto quando comparadas com as demais faixas etárias.
Corroborando com a literatura nacional, o presente estudo observou maior aumento da prevalência de sintomas depressivos pós-parto entre mulheres multíparas (dois ou mais partos) em comparação às primíparas6,36,37. Esse achado pode refletir a sobrecarga cumulativa de cuidados, frequentemente associada a menor suporte social e a condições socioeconômicas desfavoráveis. Da mesma forma, variações encontradas, no presente estudo, para o nível de instrução mais baixo e para a região Sudeste sugerem a influência de condições estruturais, como menor acesso a informações em saúde e maiores níveis de vulnerabilidade socioeconômica11,31.
A pesquisa “Nascer no Brasil” realizada em 2011/2012, encontrou uma prevalência de 26,3% de sintomas de DPP no Brasil6, resultado muito superior ao encontrado na presente pesquisa para o ano de 2013 (9,9%) e para o ano de 2019 (14,2%). Dentre os principais motivos para tal divergência está o uso de instrumentos diferentes para o rastreio de sintomas depressivos pós-parto. A “Nascer no Brasil” utilizou o EPDS, instrumento que considera dois sintomas de ansiedade, que apesar de serem comuns na depressão perinatal, não fazem parte do critério de diagnóstico de transtornos depressivos23,33. Ademais, a modalidade da entrevista entre as duas pesquisas também foi diferente, o EPDS foi aplicado, na Nascer no Brasil, por meio de ligação telefônica enquanto o PHQ-9 foi realizado por entrevista presencial e domiciliar. Além disso, o fato da entrevista na PNS ter sido feita através do entrevistador faz com que esta esteja sujeita a um viés de desejabilidade social, ou seja, o viés que está relacionado a tendência das pessoas a fornecerem respostas que são socialmente mais aceitáveis, em vez de respostas verdadeiras ou precisas, principalmente em algumas regiões do país, onde a falta de compreensão sobre transtornos mentais fazem com que o tema ainda seja um tabu 23,38,39. O fato do entrevistador na PNS ser de ambos os sexos e não apenas do sexo feminino, como na “Nascer no Brasil”, também corrobora com o possível viés de desejabilidade social nas respostas. Além das diferenças dos instrumentos utilizados em cada pesquisa, vale ressaltar a diferença no momento da aferição. A presente pesquisa analisou mulheres de 0 a 18 meses pós-parto, enquanto a “Nascer no Brasil” considerou mulheres entre 6 e 18 meses pós-parto.
Outros estudos que compararam o EPDS e o PHQ-9 também encontraram diferença no rastreio de sintomas depressivos pós-parto ao utilizar ambos os instrumentos. Larsen et al.40 compararam a prevalência de sintomas depressivos pós-parto em mulheres quenianas a partir de quatro instrumentos diferentes, sendo dois deles o EPDS e PHQ-9 e encontraram prevalência maior pelo EPDS, 9,2%, que pelo PHQ-9, 3,2%, sendo a prevalência encontrada pelo EPDS quase três vezes maior que a encontrada pelo PHQ-9. Outro estudo que comparou o uso do EPDS e PHQ-9 com o diagnóstico do DSM-IV encontrou que o EPDS apresenta melhor acurácia que o PHQ-9 para identificar mulheres com sintomas de DPP41.
Liu et al.42 ao compararem o EPDS e o PHQ-9 em mulheres grávidas encontraram que os sintomas psicológicos podem ser mais importantes na avaliação de sintomas depressivos usando a EPDS, enquanto no PHQ-9 os sintomas físicos tem maior influência. Apesar dessas diferenças, outros estudos concluíram que ambos os instrumentos podem ser utilizados para rastreio de sintomas depressivos pós-parto23,43.
Ao comparar os resultados do presente estudo com a literatura internacional que utilizou o PHQ-9 para rastreio da depressão pós-parto, foi encontrado estudo realizado com mulheres em idade reprodutiva (20-44 anos) nos Estados Unidos que considerou o período de 2007 até 2018 e que encontrou prevalência de DPP de 6,4% até 12 meses após o nascimento44. Além disso, uma revisão da literatura de artigos publicados entre 2005 e 2014, encontrou prevalência maior em países em desenvolvimento do que em países desenvolvidos. Entretanto, essa revisão não encontrou artigos que utilizaram o PHQ-9 em países em desenvolvimento, apenas seis artigos que utilizaram tal instrumento em países desenvolvidos, encontrando uma prevalência de sintomas depressivos pós-parto variando de 3,4% a 12,5% até 6 meses pós-parto45.
Motofelea et al., 2025, realizaram uma revisão da literatura e compararam a validade preditiva dos instrumentes EPDS e PHQ-9, concluindo que ambos os instrumentos possuem boa capacidade de rastreio precoce de DPP. No entanto, os autores sugerem que para aprimoramento da escolha entre os questionários, seja feito uma calibração e/ou testagem do tipo estudo piloto, de forma a identificar no contexto cultural local, qual seria o mais adequado, assegurando uma melhor identificação de mulheres em risco em diferentes cenários populacionais 46.
Dentre os pontos fortes o presente estudo é o primeiro a avaliar a variação da depressão pós-parto no Brasil, utilizando dados de duas edições de uma pesquisa com representatividade nacional. Dessa forma, foi possível comparar as variações de acordo com características da população.
Dentre as limitações, destaca-se a utilização do instrumento PHQ-9 para avaliar a prevalência de sintomas depressivos no pós-parto, em detrimento do EPDS, que é o instrumento mais amplamente utilizado mundialmente na avaliação de depressão pós parto. Além disso, vale ressaltar que houve mudança na captação de rendimento, ocupação, questões relacionadas ao acesso ao pré-natal e comorbidades maternas entre as duas edições da PNS, o que impossibilitou a avaliação dessas variáveis, que enriqueceriam e contribuiriam para uma análise mais aprofundada dos resultados encontrados. Outra limitação refere-se ao fato de que, neste estudo, os sintomas de depressão foram avaliados em um único momento, o que impossibilita identificar se as mulheres já apresentavam quadro depressivo prévio ou se os sintomas se desenvolveram antes ou durante a gestação.
Além disso, devido ao grande número de estratificações realizadas (região, faixa etária, cor/raça, nível de instrução, estado civil e paridade), não se pode descartar a possibilidade de inflacionamento do erro tipo I. Assim, os resultados devem ser interpretados com cautela, especialmente no que se refere à significância estatística.
Por fim, do ponto de vista das políticas públicas, é importante reforçar o rastreamento de DPP no período pós-parto, especialmente na Atenção Primária à Saúde, como forma de identificação precoce e início do acompanhamento. A inclusão de instrumentos validados e a qualificação das equipes podem ampliar o acesso ao cuidado.
Concluindo, o presente estudo apresentou aumento dos sintomas depressivos pós-parto entre 2013 e 2019 no Brasil. Destaca-se o aumento encontrado para as mulheres com mais de 35 anos, além disso, também foi encontrada grande variação na região Sudeste, nas mulheres com menor nível de instrução e nas multíparas. Esses achados sugerem a influência de fatores socioeconômicos (crise econômica ocorrida no país no período entre as edições da pesquisa) e demográficos (mudanças nas estruturas familiares brasileiras) para o aumento da prevalência de DPP. Vale ressaltar a necessidade de investimento público na saúde mental materna no período pós-parto, priorizando grupos mais vulneráveis.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados utilizados neste estudo são provenientes da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), de acesso público e disponíveis no portal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/9160-pesquisa-nacional-de-saude.html?=&t=microdados. O script de análise estão depositados no Dataverse e podem ser acessados em: doi:10.48331/SCIELODATA.MPSGBX.Referências bibliográficas
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Silva, CT, Miliauskas , CR, Lopes, CS. Variação da prevalência de sintomas depressivos pós-parto no Brasil: Pesquisa Nacional de Saúde 2013 e 2019. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jul). [Citado em 03/07/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/variacao-da-prevalencia-de-sintomas-depressivos-posparto-no-brasil-pesquisa-nacional-de-saude-2013-e-2019/20065?id=20065&id=20065

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